O eterno país de eleições?

O eterno país de eleições?
A cada ciclo eleitoral, o brasileiro é lembrado por candidatos, aos diversos pleitos, de que ele mora e habita em "terras brasilis", aspecto esse que poderia representar um sinal evidente de preocupação com os destinos do país, se não fora o fato de que tais pretensos políticos, com raras exceções, ocultam seus verdadeiros desejos da sociedade e que "juram" defender após as eleições.
Por Sebastião Vitalino da Silva
Em 13/10/2026
Por que planejar?
Lamentavelmente, o país experimenta, a cada ciclo eleitoral, uma espécie de "soluço" de ideias de candidatos a políticos que prometem resolver nesse período, se eleitos, todas as mazelas que nos cercam e afligem o cidadão, tudo realizado sem que se vislumbre efetiva visão de longo prazo para o Brasil.
Nesse contexto, planejar o país virou mera retórica até pois os políticos se sentem estimulados, em razão do período de um mandato de quatro anos, a pensar em ações que tenham impactos tão somente durante o curto tempo em que aqueles estiverem no exercício de seus respectivos cargos, sem deixar de vislumbrar a próxima eleição, é claro.
No que toca ao planejamento de Estado, a Constituição Federal estabelece no artigo nº 165, que todos os municípios do Brasil, independentemente do tamanho de sua população, são obrigatoriamente exigidos a elaborar as três peças do planejamento orçamentário que consistem na confecção do Plano Plurianual (PPA), da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e da Lei Orçamentária Anual, ingredientes esses que, a juízo próprio, reforçam a ideia, notadamente, na mente do político, de que tudo deve ser resolvido em quatro anos.
Por sua vez, outro ingrediente que causa confusão na cabeça de políticos desavisados e, até mesmo para o cidadão comum, reside no fato de que o Artigo 182, § 1º da Constituição determina que o Plano Diretor é obrigatório apenas para cidades com mais de vinte mil habitantes, representando isso um verdadeiro contrassenso haja vista que o Brasil tem 3.935 municípios (70,6% do total de 5.570 municípios do país, segundo dados do IBGE, com menos de 20.000 habitantes) que se enquadram nessa situação, criando mais dissenso do que a ideia de que o planejamento é essencial à Administração Pública.
A confusão estabelecida, resta administrar as contingências as quais estão submetidos os diversos agentes públicos, que passam a desconsiderar o planejamento de longo prazo e a se envolver com tudo aquilo que precisa ser resolvido no curto prazo e que, eventualmente, teria reflexo em possível segundo mandato daquele mesmo político.
Com todos esses ingredientes, a sociedade brasileira não dispõe de mecanismos de planejamento que identifique e aponte quais são os objetivos de longo prazo para o Brasil.
Um Brasil sem objetivos nacionais temporários?
Como um barco à deriva, o Brasil, país de cerca de 214 milhões de habitantes, como se estivesse à espera de "um milagre" e/ou de "um salvador da pátria", ao que parece, insiste em não ter um planejamento de longo prazo que indicasse aquilo que se quer do país nos próximos 30 a 50 anos, por exemplo, mesmo em tempos nos quais desde a operação de um celular a atividades mais complexas de trabalho já não se fazem sem a utilização de IA (Inteligência Artificial).
Sinto muito informar, porém o milagre somente acontece para quem tem muita fé, que se faz por intermédio da "verdade revelada", que tem na "oração trabalho" a única e principal forma de obter a riqueza lícita; verdade essa que está em campo oposto a todos aqueles que se acostumaram com o assistencialismo estatal ao qual muitos cidadãos já não mais vivem sem tal auxílio neste país.
Quanto à ânsia por um "salvador da pátria", talvez não mais se encontre pessoa com tal perfil pois, também, já não há mais tantos brasileiros que queiram ser salvos em razão de promessas vãs desferidas por aqueles no passado e que não se traduziram em ação no presente. Nesse contexto, emerge a questão principal, ou seja, quais são os nossos verdadeiros objetivos nacionais?
Na visão da Escola Superior de Guerra (ESG)[^1], os Objetivos Nacionais Permanentes (ONP) do Brasil são as metas supremas e de longo prazo que a nação busca alcançar e preservar ao longo do tempo, orientando a política e a estratégia de segurança e defesa do Estado. Nesses se incluem, fundamentalmente, a Soberania Nacional, Integridade Territorial, Integridade do Patrimônio Nacional, Integração Nacional, Paz Social e Democracia e Estado de Direito.
Como se observa, esses objetivos estão relacionados, em grande medida, à defesa do Estado brasileiro e, nesse contexto, fica muito difícil explicar ao cidadão, por exemplo, o conceito de Soberania Nacional, até tentado por certo candidato à Presidência da República no último pleito majoritário do país, se esse mesmo habitante local não tem o mínimo letramento no idioma pátrio para compreender o alcance desse conceito, afinal, somente podemos opinar se houver capacidade para se entender daquilo que se trata.
Dessa forma, há que se pensar em, pelo menos, Objetivos Nacionais Temporários, que poderiam ser metas conjunturais de curto e médio prazos, como, por exemplo, a melhoria dos índices da Educação Básica, de sorte que um cidadão viesse a bem compreender o que viria a ser Soberania Nacional.
Ao se retornar ao "barco à deriva", questiona-se: - o que esperar de um cidadão que não dispõe de Educação Básica que o permita a mínima compreensão de seu idioma, e que se defronta com desafios de sobrevivência econômica em momentos de aplicação intensiva da IA? Você acha que falar em Soberania Nacional teria alguma importância para cidadão ou isso soaria como algo muito distante da sua realidade?
Acorda brasileiro, pois precisamos com urgência planejar o nosso futuro!
Infelizmente, há que se caracterizar ao país, que envelheceu e não ficou rico, sobre a importância do planejamento estratégico de longo prazo, pois nisso reside o que seria a capacidade de transformar as aspirações nacionais em compromissos concretos, articulando recursos, instituições, conhecimento e participação social.
Tudo isso pareceria óbvio, mas continuamos um país que não planeja, tende a reagir aos acontecimentos, desperdiça as oportunidades, além de repetir os mesmos erros históricos, como se cada político vencedor de um ciclo eleitoral tentasse, sem sucesso, reinventar a roda. Será que tais políticos ainda não sabem que um país que planeja com seriedade aumenta sua capacidade de antecipar riscos, passa a estabelecer melhor as suas prioridades e a utilizar bem os recursos disponíveis?
O Brasil possui território, população, recursos naturais, capacidade empreendedora e potencial científico suficientes para aspirar a uma posição internacional mais relevante. Entretanto, essas vantagens não se convertem automaticamente em prosperidade. É necessário construir uma estratégia que conecte a educação, a inovação, o desenvolvimento econômico, a responsabilidade fiscal, a inclusão social e a qualidade institucional. Temos em 2026, mais uma oportunidade para transformar o Brasil, pelo voto, em país melhor. Já pensou nisso?
Ao que parece, na atual cena, o maior obstáculo não é a ausência de diagnósticos sobre os problemas brasileiros, mas a dificuldade de transformar diagnósticos em decisões consistentes, de executar políticas públicas e de preservar o que funciona, bem como afastar a corrupção que se tornou endêmica e sistêmica no país.
Portanto, planejar o Brasil do porvir é uma responsabilidade que ultrapassa os interesses dos governos de hoje em que muitos estão mais interessados nas próximas eleições que propriamente na melhoria das condições de vida do cidadão.
Planejar é um compromisso com as próximas gerações, com a qualidade da democracia e com a construção de uma sociedade na qual o desenvolvimento seja permanente, as oportunidades sejam mais amplas e o futuro não dependa de um milagre e tampouco de "salvadores da pátria".
Em última análise, o planejamento estratégico é uma das principais ferramentas de soberania nacional ao permitir que o Brasil deixe de ser apenas um país de grandes possibilidades e passe a ser uma nação capaz de converter seu potencial em resultados concretos e duradouros.
Acorda Brasil!
Vitalino Consultor
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[^1]: Escola Superior de Guerra -- ESG. Disponível em:
Acesso em: 11 out. 2026.




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