DEBATE NA BAND

DEBATE DA BAND
Por Adriano Amaral
Assisti ao debate presidencial da Band entre Lula e Flávio Bolsonaro com uma sensação incômoda. Não porque tenham faltado acusações. Sobraram. Faltou algo mais importante: contestar imediatamente determinadas afirmações e, principalmente, impedir que fatos de natureza e gravidade completamente diferentes fossem colocados no mesmo plano.
Existe uma frase atribuída há décadas a Joseph Goebbels segundo a qual uma mentira repetida muitas vezes acaba se tornando verdade... especialmente para parte da opinião pública.
Foi isso que senti faltar em vários momentos do debate.
Se eu estivesse no lugar de Flávio Bolsonaro, teria respondido mais ou menos assim.
Primeiro: Vamos discutir o Brasil Real, não o Brasil da Narrativa
Presidente Lula, vamos começar pela economia.
No debate, você chegou a falar em crescimento de 10%. Mas vamos comparar a narrativa com os números. O PIB brasileiro cresceu 3,2% em 2023, 3,4% em 2024 e 2,3% em 2025. Nos quatro trimestres encerrados no segundo trimestre de 2026, o crescimento já havia desacelerado para 1,9%. Então vamos parar de fabricar grandeza juntando números e olhar para aquilo que realmente importa: crescimento sustentável, contas públicas e capacidade de o país pagar amanhã aquilo que o governo gasta hoje.
O problema não é apenas quanto o PIB cresceu. É como cresceu e a que custo. Em julho de 2026, a dívida bruta do governo geral já alcançava R$ 10,9 trilhões, 82,5% do PIB. E sabe quanto o setor público havia gastado com juros nos doze meses anteriores? R$ 1,15 trilhão.
Mais de um trilhão de reais em juros em apenas doze meses. É uma ironia extraordinária para quem passou décadas denunciando o sistema financeiro: seu governo ajuda a produzir uma dívida gigantesca e o contribuinte brasileiro entrega mais de R$ 1 trilhão por ano em juros para financiá-la.
Gastar mais pode estimular a economia no presente. Endividar o Estado também pode produzir crescimento no curto prazo. Mas isso não é almoço grátis. A dívida fica. Os juros ficam. E a conta é transferida para o próximo governo e para a próxima geração.
Crescimento comprado com dívida não é prosperidade. É consumo presente financiado pela renda futura.
E existe outro número que merece cuidado: o desemprego.
A taxa oficial mede quem está sem trabalho e procurando trabalho. Quem desistiu de procurar deixa de ser contado como desempregado e passa para a força de trabalho. Portanto, comemorar apenas a menor taxa de desemprego sem olhar participação, desalento, informalidade, produtividade e dependência de transferências sociais também pode produzir uma fotografia enganosa do mercado de trabalho.
Um governo não deveria comemorar apenas quantas pessoas recebem benefícios. Deveria comemorar principalmente quantas deixaram de precisar deles. Porque Bolsa Família deve ser ponte, não carreira. Proteção para quem precisa, não modelo permanente de vida.
A pergunta econômica fundamental, portanto, não é quanto dinheiro o governo conseguiu colocar em circulação hoje. É quanto de riqueza, produtividade e capacidade de pagamento está deixando para amanhã.
Você diz repetidamente que recebeu um país desestruturado. Mas recebeu o Governo Federal com um superávit primário de R$ 59,7 bilhões em 2022 e recebeu a dívida bruta em 71,7% do PIB. Hoje estamos novamente na vizinhança dos 83% do PIB. Portanto, pare de dizer simplesmente que recebeu uma terra arrasada que, você sim, está deixando para o próximo presidente.
Não existe dinheiro público. Existe dinheiro que o Estado arrecada da sociedade ou toma emprestado em nome dela. E dívida pública é imposto adiado.
INSS: o problema não é quando surgiu o desconto associativo. É quando o abuso explodiu
Presidente Lula, não tente escapar dizendo que descontos associativos em benefícios do INSS já existiam antes de teu governo.
Naturalmente existiam. O escândalo não é a existência do convênio. O escândalo é o que aconteceu com ele.
Segundo dados apresentados nas investigações, os descontos associativos passaram de aproximadamente R$ 784 milhões em 2022 para R$ 1,54 bilhão em 2023 e R$ 3,4 bilhões em 2024. Ou seja: em apenas dois anos, multiplicaram-se por mais de quatro. A CGU encontrou beneficiários que afirmavam não ter autorizado os descontos, problemas de documentação e entidades cuja estrutura operacional levantava dúvidas diante da quantidade de associados.
É essa mudança de escala que precisa ser explicada. E ela ocorreu durante o governo Lula, dentro de uma estrutura administrativa submetida ao teu governo.
Alessandro Stefanutto assumiu a presidência do INSS em julho de 2023. Sua indicação foi atribuída ao então ministro da Previdência, Carlos Lupi, que posteriormente assumiu publicamente a responsabilidade pela escolha. Quando a Operação Sem Desconto foi deflagrada, Stefanutto foi afastado e depois exonerado.
Portanto, a pergunta politicamente relevante não é: “existiam descontos associativos antes de Lula?” É evidente que existiam.
A pergunta é: como um mecanismo que movimentava cerca de R$ 784 milhões em 2022 chegou a R$ 3,4 bilhões em 2024, enquanto milhares de aposentados denunciavam descontos que diziam não ter autorizado?
Quem autorizou os novos acordos? Quem deveria fiscalizá-los? Quando o governo soube? O que fez depois de saber? E por que o problema alcançou essa dimensão antes de ser interrompido?
Essas perguntas não são respondidas dizendo que o instrumento jurídico já existia.
Seria como descobrir que fraudes em cartões de crédito quadruplicaram durante determinada administração e responder que cartões de crédito já existiam antes dela.
O instrumento não é o escândalo. O abuso do instrumento é.
E quando você se apresenta no debate como defensor dos aposentados e utiliza o INSS para atacar o adversário, não pode apagar a cronologia mais incômoda: foi durante teu governo que esses descontos atingiram escala bilionária e que revelou o esquema hoje investigado.
Banco Master: comparar não é equiparar
E aqui chegamos a um dos momentos mais reveladores do debate.
Você repetiu diversas vezes: Onde estão os R$ 134 milhões? Onde estão os R$ 134 milhões? Onde estão os R$ 134 milhões?.
A repetição da pergunta produziu exatamente o efeito pretendido: transformar uma operação que precisa ser investigada em uma conclusão antecipada de corrupção.
Então vamos separar os fatos. Flávio Bolsonaro procurou Daniel Vorcaro para levantar recursos destinados ao filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro.
Há gravações dessas conversas. A negociação discutida chegou a aproximadamente R$134 milhões. As informações divulgadas até agora apontam pagamentos de cerca de R$61 milhões relacionados ao projeto.
Investigue-se cada real. Quem pagou? Para quem pagou? Qual foi a origem dos recursos? Qual foi o destino? Quais contratos existiram? Tudo isso deve ser esclarecido.
Mas existe uma pergunta anterior que a narrativa deliberadamente elimina: pedir dinheiro privado para financiar um filme privado é, por si só, corrupção? Não.
Para transformar isso em corrupção é necessário demonstrar algo além: vantagem indevida, dinheiro ilícito, contrapartida pública, tráfico de influência, lavagem, fraude ou outro ilícito.
Agora vamos ao outro relacionamento com Daniel Vorcaro.
Presidente Lula, você não estava produzindo um filme. Você era Presidente da República.
Daniel Vorcaro controlava uma instituição financeira submetida à supervisão do Estado brasileiro. E você o recebeu no Palácio do Planalto em dezembro de 2024. A reunião não constou de sua agenda oficial. Vorcaro estava acompanhado de Augusto Lima e de Guido Mantega, ex-ministro de teus governos, que havia mantido relação de consultoria com o Master. E Gabriel Galípolo, que havia sido indicado por você para presidir o Banco Central, também participou do encontro.
Segundo o que foi posteriormente relatado, Vorcaro apresentou questões relacionadas ao Banco Master e Lula teria respondido que os assuntos técnicos deveriam ser tratados com o Banco Central.
Esse contexto também precisa ser apresentado integralmente. Mas justamente por isso a comparação precisa ser feita corretamente.
De um lado, há captação privada para uma produção cinematográfica privada.
Do outro, há o Presidente da República recebendo, fora da agenda oficial, o controlador de um banco regulado pelo Estado, em encontro do qual participou o futuro presidente do Banco Central.
Não são fatos equivalentes. Este me parece muito mais grave que aquele. Comparar não é equiparar.
E utilizar um fato para neutralizar o outro é precisamente uma das formas mais enganosas de confundir a opinião pública.
Lulinha e Roberta: quando tudo vira “caso de polícia”
Quando Flávio perguntou sobre Roberta Luchsinger e sobre Lulinha, Lula refugiou-se numa resposta conveniente: é “caso de polícia”. Mas essa não é uma resposta. É uma maneira de não responder.
Ninguém estava perguntando se eventuais crimes deveriam ser investigados pela polícia. Evidentemente deveriam. A pergunta era o que o Presidente da República tinha a dizer sobre fatos e acusações graves envolvendo pessoas tão próximas a ele.
São verdadeiros? São falsos? São graves? Preocupam o Presidente? Exigem alguma explicação? Responder simplesmente “é caso de polícia” permite não se pronunciar sobre nada.
Flávio poderia ter devolvido com uma pergunta muito mais incômoda: Presidente, por que tudo ao seu redor acaba sendo “caso de polícia”?
Seu filho é questionado: caso de polícia. Pessoas próximas são questionadas: caso de polícia. Antigos dirigentes, operadores políticos e empresários ligados aos grandes escândalos de seus governos foram investigados, processados ou condenados: casos de polícia. E então o extraordinário começa a parecer ordinário.
Esse é o perigo da normalização. Quando acusações graves se acumulam ao redor do poder, a resposta de um Presidente não pode ser simplesmente lavar as mãos e terceirizar qualquer julgamento para a polícia, sobretudo quando ele próprio utiliza investigações envolvendo adversários como argumento político.
A polícia investiga crimes. O Presidente responde politicamente pelos fatos que cercam seu governo, seu grupo e suas relações.
“Caso de polícia” não encerra a discussão. É justamente onde ela começa.
Argentina: quando a ideologia encontra a realidade
Presidente Lula, quando você critica Milei, talvez fosse conveniente explicar primeiro o país que Milei recebeu.
A Argentina não nasceu pobre. No início do século XX, estava entre as economias de maior renda per capita do mundo e atraía milhões de imigrantes europeus em busca de prosperidade.
O país foi destruído economicamente ao longo de muitas décadas, e seria historicamente falso atribuir todos os seus problemas a um único partido ou governo. Houve ditaduras militares, crises internacionais e erros cometidos por diferentes forças políticas.
Mas essa constatação não pode servir de esconderijo para evitar uma conclusão igualmente histórica: a esquerda com o peronismo foi protagonista central da decadência argentina, e sua vertente kirchnerista aprofundou vários dos vícios que fizeram o país conviver durante décadas com déficit fiscal, intervencionismo, controles de preços e de câmbio, protecionismo, emissão monetária, inflação e destruição recorrente da confiança.
Não é uma interpretação inventada pela direita brasileira.
A própria história econômica argentina registra déficits públicos crônicos, inflação endêmica e uma economia progressivamente intervencionista. No período anterior à chegada de Milei, a Argentina voltou a terminar com inflação superior a 200% ao ano e profundos desequilíbrios fiscais e monetários.
Milei recebeu esse país. E há agora um dado que seus críticos precisam enfrentar: depois do ajuste iniciado em dezembro de 2023, a Argentina conseguiu dois anos consecutivos de superávit primário pela primeira vez em quase duas décadas, enquanto a inflação anual caiu de mais de 200% para pouco mais de 30% no início de 2026. O próprio FMI descreve os resultados da estabilização como expressivos, embora registre problemas e riscos ainda existentes.
Portanto, antes de usar Milei como espantalho, deveríamos perguntar: quem produziu a Argentina que tornou Milei possível?
Venezuela: quando a ideologia encontra a realidade
E então olhemos para a Venezuela. A Venezuela possui as maiores reservas comprovadas de petróleo do planeta.
Não era inevitável que sua população empobrecesse dramaticamente, que milhões de venezuelanos deixassem o país e que uma democracia imperfeita se transformasse em um regime autoritário.
Hugo Chávez chegou ao poder prometendo justiça social, distribuição de riqueza e combate às elites. Concentrou poder. Enfraqueceu contrapesos institucionais. Ampliou o controle estatal sobre a economia. Promoveu nacionalizações e expropriações. Utilizou a extraordinária renda do petróleo para financiar um projeto político. E escolheu Nicolás Maduro como sucessor.
Quando o petróleo caiu e as fragilidades do modelo ficaram expostas, veio o desastre.
Isso não significa que a queda do preço do petróleo, as sanções internacionais e outros fatores externos sejam irrelevantes. Significa que eles atingiram uma economia que havia se tornado extraordinariamente dependente do petróleo e um Estado cujas instituições haviam sido progressivamente subordinadas ao projeto chavista.
O resultado está diante de nós: recessão prolongada, hiperinflação, deterioração dos serviços públicos, êxodo de milhões de venezuelanos e progressivo fechamento do espaço democrático. Organismos internacionais documentaram a concentração de poder, os ataques à independência do Judiciário, à imprensa e à oposição desde Chávez, aprofundados posteriormente por Maduro.
E é justamente diante desse regime que o Presidente do Brasil recebeu Nicolás Maduro em Brasília e afirmou que havia sido construída contra a Venezuela uma “narrativa” de antidemocracia e autoritarismo.
Não, presidente. O autoritarismo venezuelano não é uma narrativa. Narrativa é tentar convencer o mundo de que ele não existe.
Minha pergunta seria muito simples: por que recomendar a construção de uma narrativa? Por que não recomendar a construção de instituições? Por que não recomendar segurança jurídica? Imprensa livre? Eleições confiáveis? Separação entre os Poderes? Prosperidade? Investimentos? Melhoria da qualidade de vida?
Narrativa é a descrição da realidade. Quando a narrativa se torna mais importante do que a realidade, começamos a ter um problema.
Cuba: quando a ideologia encontra a realidade
E há Cuba. Depois de mais de seis décadas de revolução socialista, Cuba continua sendo um Estado de partido único, sem pluralismo político, com severas restrições à liberdade de imprensa e à oposição e uma economia em profunda crise. Em 2025, continuavam sendo relatadas escassez de alimentos e medicamentos, apagões prolongados e saída maciça de cubanos do país.
Mais uma vez haverá uma explicação externa. O embargo americano existe e evidentemente produz efeitos econômicos. Pode-se discutir sua legitimidade, eficácia e consequências. Mas o embargo não obrigou Cuba a proibir oposição política.
Não obrigou Cuba a censurar a imprensa. Não obrigou Cuba a construir durante décadas uma economia predominantemente comandada pelo Estado. E não explica sozinho por que tantos cubanos arriscam tudo para sair do país, enquanto tão poucos estrangeiros fazem o percurso inverso para desfrutar as virtudes econômicas do regime.
Argentina, Venezuela e Cuba não são o mesmo país e não tiveram a mesma trajetória. Mas também não são três acidentes históricos sem qualquer conexão ideológica.
Existe uma tradição da esquerda política latino-americana que promete igualdade atacando a acumulação de capital; promete prosperidade ampliando o Estado; promete proteger o trabalhador enfraquecendo quem investe; promete controlar a inflação controlando preços; promete soberania hostilizando o capital; e, quando os resultados começam a aparecer, procura um culpado externo.
Primeiro desaparece o investimento. Depois a produtividade. Depois a moeda forte. Depois o emprego. Depois produtos das prateleiras. Depois a esperança. E, quando o poder também começa a ser ameaçado, frequentemente desaparecem as liberdades.
É então que a propaganda e as narrativas se tornam indispensáveis, porque o regime já não consegue mais se legitimar pelos resultados.
Por isso essas experiências não podem ser tratadas apenas como interessantes divergências ideológicas, como se estivéssemos discutindo duas escolas de economia numa universidade.
Houve empobrecimento. Houve fome. Houve famílias separadas. Houve perseguição. Houve presos políticos. Houve gente que perdeu tudo. Houve milhões que abandonaram seus países. Houve gerações inteiras que entregaram décadas de suas vidas a experiências políticas que prometiam construir uma sociedade melhor.
Essas pessoas existiram. Suas dores existiram. Suas frustrações existiram. E, nos regimes autoritários, suas mortes também existiram.
Não podemos apagar tudo isso cada vez que uma experiência fracassa e começar novamente a discussão como se o problema tivesse sido apenas “a implementação”, “as circunstâncias internacionais”, “o embargo”, “o preço do petróleo” ou a eterna conspiração de algum inimigo externo.
Ideias têm consequências. E algumas ideias já produziram consequências humanas graves demais para que continuemos tratando seus resultados como meros acidentes de percurso.
Brasil: quando a ideologia encontra a realidade
E talvez seja exatamente aqui que devamos voltar ao Brasil. Porque não precisamos chegar à Venezuela ou a Cuba para perguntar quanto uma geração pode perder quando um projeto político como o do PT já permaneceu tempo demais no poder.
Presidente Lula, não fale apenas do quanto o Brasil cresceu em determinados anos de seu governo. Diga quanto poderia ter crescido.
Porque governar bem não é simplesmente crescer quando o mundo inteiro cresce, quando a China compra tudo o que conseguimos produzir e quando minério, petróleo, soja e outras commodities valorizam extraordinariamente.
A pergunta é quanto dessa oportunidade foi transformada em capacidade permanente de produzir riqueza. E é aí que sua herança precisa ser confrontada.
Enquanto o Brasil comemorava crescimento de 3%, 4% ou 5% como extraordinário, a China acumulava anos próximos ou superiores a 10%. A Índia crescia repetidamente a taxas de 6%, 7% e 8%.
Não estamos falando de um ano. Estamos falando do poder dos juros compostos aplicado durante décadas à economia de países inteiros. Essa é a comparação que importa.
O Brasil começou os anos 1990 com uma economia nominal maior que as economias chinesa e indiana. Olhe para elas hoje. E olhe para nós.
A China transformou-se numa potência econômica várias vezes maior que o Brasil. A Índia também nos ultrapassou amplamente.
Não foi porque o Brasil encolheu durante todo esse período. Foi algo talvez mais grave: o mundo correu e nós caminhamos.
E oportunidades históricas não ficam esperando um país resolver aproveitá-las. Passam.
O extraordinário ciclo internacional dos anos 2000 deveria ter sido utilizado para transformar estruturalmente o Brasil. Era a hora de elevar brutalmente a produtividade. Modernizar infraestrutura. Simplificar impostos. Abrir mercados. Melhorar educação. Aumentar investimento. Acumular capital. Reduzir o peso do Estado. Criar segurança jurídica. Integrar nossa economia às cadeias internacionais. Preparar o país para crescer quando o vento externo deixasse de soprar a nosso favor.
Em vez disso, atravessamos aqueles anos construindo uma economia cada vez mais dependente do consumo, do gasto público, do crédito subsidiado, das “campeãs nacionais”, da intervenção estatal e da extraordinária renda proporcionada pelo ciclo internacional.
E ainda tivemos Mensalão. Petrolão. A captura política de empresas estatais. Empreiteiras pagando propinas. A institucionalização da corrupção. Diretores indicados politicamente envolvidos em esquemas criminosos. Bilhões devolvidos depois. E a Petrobras, uma das maiores empresas do mundo, convertida em símbolo daquele período.
A própria Petrobras reconheceu contabilmente R$ 6,2 bilhões em gastos adicionais capitalizados associados aos pagamentos indevidos revelados pela Lava Jato. E corrupção sequer é a maior conta.
A maior conta é aquilo que nunca chegou a existir. O PIB que não produzimos. A produtividade que não conquistamos. As empresas que não nasceram. Os investimentos que foram para outros países. Os empregos altamente produtivos que nunca foram criados. Os salários que nunca foram pagos. O patrimônio que as famílias brasileiras nunca acumularam. A tecnologia que não desenvolvemos. A infraestrutura que não construímos. A renda per capita que poderíamos ter alcançado.
Essa é a verdadeira tragédia econômica brasileira. Porque R$ 1 bilhão desviado é um crime enorme. Mas um país que deixa de crescer alguns pontos percentuais durante décadas perde trilhões.
E perde algo ainda mais valioso: tempo. Dinheiro perdido pode ser recuperado. Uma geração perdida não.
O jovem que tinha 20 anos quando Lula tomou posse pela primeira vez em 2003 tem hoje mais de 40. Uma criança nascida naquele ano já é adulta. Para essas pessoas, duas décadas não são uma estatística econômica. São uma parte enorme de suas vidas. E durante boa parte desse período o Brasil esteve direta ou indiretamente sob o comando do mesmo projeto político.
Lula governou de 2003 a 2010. Escolheu pessoalmente Dilma Rousseff para sucedê-lo. O PT governou até 2016. Lula voltou ao poder em 2023.
Portanto, depois de tantos anos, já não é aceitável apresentar Lula apenas como “comentarista” dos problemas brasileiros.
Ele é protagonista dessa história. Não pode reivindicar para si cada emprego criado, cada aumento de renda e cada programa social e, quando chega a conta da baixa produtividade, do desperdício, da corrupção, do aparelhamento, da deterioração fiscal e das oportunidades perdidas, atribuí-la sempre a outra pessoa.
Governar significa assumir também o custo daquilo que o país poderia ter sido. E talvez seja essa a pergunta mais incômoda que eu faria a você: quantos anos mais o Brasil precisa entregar ao mesmo projeto político até que possamos julgá-lo não por aquilo que promete aos pobres, mas pela prosperidade que efetivamente não foi capaz de produzir?
Porque administrar pobreza não é acabar com a pobreza. Distribuir renda não é criar riqueza. Conceder benefício não é emancipar uma família. E utilizar os pobres como justificativa permanente para ampliar o poder do Estado não substitui a obrigação de criar uma economia na qual cada vez menos brasileiros precisem depender dele.
O verdadeiro programa social de longo prazo chama-se prosperidade. É produtividade. É emprego. É salário. É educação de qualidade. É propriedade. É poupança. É investimento. É uma família começar uma geração melhor do que começou a anterior. E é precisamente por isso que o legado econômico de um governo não deve ser medido apenas por aquilo que distribuiu.
Deve ser medido também pela riqueza que permitiu que seu povo criasse. O Brasil tem território. Tem população. Tem recursos naturais. Teve democracia. Teve estabilidade monetária herdada do Plano Real. Teve demanda chinesa. Teve commodities valorizadas. Teve capital internacional disponível. Teve uma janela histórica extraordinária.
O que não teve foi outra chance de viver aqueles mesmos vinte anos. E essa talvez seja a conta mais dolorosa de todas. Não a corrupção que conseguimos descobrir. Mas a prosperidade que nunca chegamos a conhecer.
Covid: 700 mil mortos não são 700 mil mortos de Bolsonaro
E então chegamos à Covid.
Presidente Lula, aproximadamente 700 mil brasileiros morreram tendo a Covid registrada como causa de morte. Isso é fato.
O que não é fato é transformar automaticamente 700 mil mortos pela maior pandemia mundial em um século em 700 mil mortos por Jair Bolsonaro.
Para sustentar essa afirmação seria necessário responder a uma pergunta elementar: quantos brasileiros morreriam sob outro presidente, submetidos ao mesmo vírus, às mesmas variantes, à mesma estrutura populacional, às mesmas condições sociais e ao mesmo sistema de saúde?
Então comparemos países reais. No acumulado da pandemia, as mortes oficialmente atribuídas à Covid ficaram aproximadamente na casa de 0,33% da população brasileira.
Nos Estados Unidos, ficaram aproximadamente na mesma ordem de grandeza e até ligeiramente acima. Na Itália, também próximas. Portugal ficou perto desse patamar. França, Espanha e Alemanha ficaram pouco abaixo.
Portanto, o Brasil teve mortalidade elevada como a maioria dos demais países durante uma pandemia. Mas a ideia de que o número brasileiro constitui, sozinho, demonstração de uma excepcionalidade produzida por Bolsonaro simplesmente não decorre da comparação internacional.
E há outra questão estatística pouco discutida. Quando a Covid apareceu, houve mudanças relevantes na classificação das demais causas de morte.
Estudo utilizando dados brasileiros encontrou, entre março e dezembro de 2020, queda das mortes registradas tendo doenças cardiovasculares e câncer como causas básicas, enquanto essas doenças passaram a aparecer mais frequentemente como comorbidades nas declarações de óbito.
Isso não autoriza retirar arbitrariamente essas mortes da estatística da Covid. Mas demonstra como é intelectualmente pobre transformar uma questão epidemiológica complexa em um slogan eleitoral.
A cena da “falta de ar”: mostre o vídeo inteiro
Um dos exemplos mais eficientes dessa construção narrativa foi o vídeo em que Bolsonaro imita uma pessoa ofegante. Milhões de brasileiros receberam aquela imagem acompanhada de uma interpretação pronta: Bolsonaro estaria zombando das pessoas que morriam sem conseguir respirar.
Só que havia um contexto, cortado da narrativa. Naquela fala, Bolsonaro criticava a orientação de mandar o paciente para casa e recomendar que procurasse atendimento quando o quadro se agravasse e surgisse falta de ar.
A encenação reproduzia justamente esse momento. Uma sociedade minimamente comprometida com a verdade deveria exigir algo muito simples: mostre a frase anterior e a frase seguinte.
Porque editar uma imagem verdadeira de maneira a produzir um significado diferente também é uma forma de desinformação. E talvez seja uma das mais eficientes, porque não precisa fabricar o vídeo. Basta fabricar o contexto.
Ivermectina: ciência não é dogma
Outra palavra transformada em símbolo político foi ivermectina.
Durante uma doença completamente nova, médicos e pesquisadores do mundo inteiro testaram dezenas de medicamentos existentes. Era exatamente isso que deveriam fazer. Entre esses medicamentos estava a ivermectina.
Em Itajaí, Santa Catarina, Flávio Cadegiani e outros pesquisadores acompanharam um enorme programa municipal. O estudo publicado posteriormente foi prospectivo e observacional, não randomizado, e utilizou propensity-score matching para tentar tornar comparáveis os grupos. Foram analisados mais de 159 mil indivíduos. Entre os participantes infectados comparados após o pareamento, os pesquisadores encontraram associação entre uso regular de ivermectina e reduções importantes de hospitalização e mortalidade.
Isso significa que a ivermectina foi definitivamente comprovada? Não.
Mas justamente aí está a diferença entre ciência e religião. Ciência formula hipótese. Testa. Contesta. Replica. Compara metodologia. Muda de opinião quando aparecem evidências melhores.
Transformar médicos que estudavam uma droga existente em inimigos da ciência foi uma perversão do próprio método científico. O que não se deveria fazer é reescrever 2020 como se, diante de uma doença nova e sem tratamento estabelecido, fosse anticientífico investigar alternativas.
Vacina: agosto de 2020 não era janeiro de 2021
Outra narrativa repetida é que Bolsonaro teria simplesmente recusado 70 milhões de vacinas prontas da Pfizer.
Vamos colocar as datas. Em agosto de 2020, a Pfizer apresentou propostas ao Brasil que poderiam alcançar 70 milhões de doses. Mas a vacina ainda não estava autorizada pela Anvisa.
Aliás, nenhuma vacina contra Covid estava autorizada para aplicação no Brasil naquele momento. As primeiras autorizações emergenciais brasileiras, para CoronaVac e AstraZeneca, somente ocorreram em 17 de janeiro de 2021 e o Brasil começou a vacinar imediatamente.
A partir daí, o país realizou uma das maiores campanhas de vacinação do mundo. Até janeiro de 2023, haviam sido distribuídas mais de 570 milhões de doses e aplicadas cerca de 500 milhões, volume equivalente a aproximadamente duas vezes e meia a população brasileira. Quase 80% da população havia completado o esquema vacinal.
Portanto, é legítimo discutir se o governo deveria ter contratado antecipadamente, assumindo riscos antes da aprovação regulatória. É legítimo discutir a compra à luz das cláusulas propostas pela Pfizer, responsabilidade por efeitos adversos, cronogramas, preço e risco regulatório.
O que não é legítimo é contar essa história como se existissem 70 milhões de vacinas comprovadas, aprovadas e prontas para serem aplicadas nos brasileiros em agosto de 2020 e Bolsonaro tivesse simplesmente dito não. Não existiam.
E tampouco é correto construir a impressão de que, quando as vacinas foram aprovadas, o Brasil se recusou a vacinar. A vacinação começou no próprio dia da primeira autorização da Anvisa e chegaria a cerca de meio bilhão de doses aplicadas.
Genocídio: desconhecimento intencional ou ignorância
E talvez aqui esteja um dos exemplos mais graves de como a linguagem foi utilizada durante a pandemia. Chamaram Jair Bolsonaro de genocida. Repita-se a palavra: genocida.
Genocídio não significa governar mal. Não significa cometer um erro sanitário. Não significa discordar de determinada política de isolamento. Não significa recomendar um medicamento que posteriormente não demonstre eficácia. Não significa demorar a comprar uma vacina. Nem mesmo provocar mortes por negligência, caso isso fosse demonstrado, transforma automaticamente alguém em genocida.
Genocídio possui significado jurídico. Exige intenção de destruir, no todo ou em parte, determinado grupo nacional, étnico, racial ou religioso enquanto tal.
Então a pergunta deveria ter sido feita desde o primeiro momento: qual grupo Jair Bolsonaro pretendia destruir? Os brasileiros? Os idosos? Os pobres? Os indígenas? E, principalmente: qual foi o ato, plano, política ou programa destinado intencionalmente à destruição física desse grupo enquanto grupo?
Essa demonstração é indispensável para uma acusação de genocídio.
Esse detalhe é importante porque revela a distância existente entre linguagem jurídica e linguagem política. Fora dos autos, “genocida” já havia se transformado em palavra de ordem. Foi escrito em cartazes. Repetido em manifestações. Reproduzido em discursos. Multiplicado nas redes sociais. E incorporado à linguagem cotidiana de uma parcela enorme dos adversários de Bolsonaro.
A palavra deixou de funcionar como descrição de um crime específico e passou a funcionar como instrumento de desumanização política. Não era mais necessário discutir cada decisão. Não era necessário comparar mortalidade entre países. Não era necessário perguntar quais medidas eram atribuição da União, dos Estados ou dos Municípios. Não era necessário discutir idade da população, comorbidades, variantes, estrutura hospitalar, excesso de mortalidade, lockdown, vacinação ou os conhecimentos disponíveis em cada momento da pandemia.
O julgamento já estava contido no nome: genocida.
E isso deveria nos preocupar independentemente de quem seja o alvo. Porque existe uma diferença civilizatória entre dizer: “considero que seu governo tomou decisões erradas durante a pandemia” e dizer: “você deliberadamente tentou exterminar um povo”.
São acusações de natureza completamente diferente. Quando eliminamos essa diferença, não estamos apenas exagerando uma crítica. Estamos alterando o significado das palavras para alterar a percepção das pessoas.
Primeiro escolhe-se o rótulo. Depois ele é repetido. Depois o indivíduo deixa de ser um adversário cujas decisões precisam ser analisadas e passa a ser moralmente definido pelo rótulo. Negacionista. Fascista. Genocida. Inimigo da ciência. Inimigo da democracia.
Quando o nome substitui o argumento, já não é necessário demonstrar a acusação. Basta repeti-la. E talvez essa tenha sido uma das maiores deformações do debate brasileiro durante a pandemia.
Podemos discutir cada erro cometido por Bolsonaro. Podemos investigar cada decisão. Podemos discordar profundamente de sua maneira de falar. Podemos responsabilizar juridicamente qualquer autoridade quando estiverem presentes os elementos de determinado crime. Mas existe uma obrigação anterior: dar às palavras o significado que elas realmente possuem.
Transformar crimes contra a humanidade em adjetivos eleitorais não torna a política mais moral. Torna a disputa fraudulenta. Uma vitória baseada em narrativas e rótulos não é uma vitória. É apenas uma fraude bem-sucedida. Não há honra numa vitória trapaceada e o governo eleito com base em fraudes não é legítimo e que se sustenta com narrativas e mentiras não é meritório, nem bem-sucedido.
Lockdown: “fique em casa” também tinha um custo humano
E chegamos talvez à discussão mais importante. A preocupação com os efeitos do lockdown não era anticientífica.
A própria Organização Mundial da Saúde alertou que medidas adequadas a países ricos poderiam produzir consequências severas em populações vulneráveis. Para milhões de trabalhadores informais, não trabalhar significa não receber. E não receber significa não comer.
Fechar uma sociedade também produz consequências sanitárias. Desemprego. Pobreza. Isolamento. Depressão. Dependência química. Atraso no diagnóstico de câncer. Tratamentos adiados. Crianças fora da escola. Empresas destruídas. Famílias endividadas.
Isso não significa que toda restrição tenha sido errada. Significa que saúde pública nunca foi apenas contar infecções por Covid.
Governar significa ponderar consequências simultâneas. Bolsonaro escolheu enfatizar que o país precisava combater a doença sem destruir os meios de sobrevivência da população. Pode-se discordar da forma. Pode-se discutir cada decisão. Mas tratar qualquer preocupação econômica e social como desprezo pela vida foi uma simplificação brutal.
Corrupção: anular uma condenação não reescreve a história
Quando Lula fala de corrupção, há outro cuidado histórico necessário. Lula foi condenado no processo do tríplex. Sua condenação foi confirmada em segunda instância e posteriormente pelo STJ.
Depois, essas condenações foram anuladas pelo Supremo Tribunal Federal porque este reconheceu que a 13ª Vara Federal de Curitiba não era competente para julgar aqueles casos. Mas, anulação não é a mesma coisa que absolvição de mérito.
A decisão que anulou as condenações não declarou que todos os fatos investigados eram fictícios. Existiram dezenas de outros réus, além do Lula, delações, documentos, contas no exterior, acordos de leniência, confissões empresariais, devoluções bilionárias e condenações relacionadas ao gigantesco esquema revelado na Petrobras e em grandes contratos públicos.
Antes disso houve o Mensalão. Depois veio o Petrolão. Portanto, é perfeitamente possível reconhecer abusos cometidos pela Lava Jato e, simultaneamente, recusar a tentativa de transformar esses abusos na conclusão absurda de que os grandes esquemas de corrupção revelados naquele período jamais existiram. Existiram.
Facismo: paremos de usar a historia como xingamento
Presidente Lula, pare de utilizar "fascista" como sinônimo de adversário político.
O fascismo histórico envolveu culto à personalidade, concentração do poder, enfraquecimento das instituições, mobilização permanente contra inimigos internos, subordinação da sociedade ao projeto político e utilização sistemática da propaganda.
Esses fenômenos se assemelham muito ao teu governo e forma de governar e devem preocupar qualquer democrata quando aparecem, seja à direita, seja à esquerda.
Seymour Martin Lipset chegou a estudar o fascismo como uma modalidade de "extremismo do centro", destacando sua base em setores radicalizados de académicos, artistas e jornalistas.
“Muito dinheiro na mão de poucos”
E então Lula pronunciou talvez uma das frases economicamente mais incorretas do debate: “muito dinheiro na mão de poucos significa pobreza e miséria” e “pouco dinheiro na mão de muitos significa distribuição de riqueza, distribuição de renda”.
É uma excelente frase eleitoral. Como teoria econômica, é equivocada. Existe uma diferença elementar entre distribuir riqueza e produzir riqueza. Capital acumulado não fica necessariamente escondido debaixo do colchão de um milionário.
Ele financia fábricas. Empresas. Máquinas. Tecnologia. Casas. Infraestrutura. Crédito. Pesquisa. Startups. Empregos.
O consumo movimenta a economia presente. A poupança e o investimento ampliam a economia futura.
O objetivo de uma sociedade próspera não deveria ser escolher entre cem milionários e um milhão de pobres.
Deveria ser criar condições para que milhões de pessoas deixem de ser pobres e acumulem patrimônio. Prosperidade não é repartir igualmente a pobreza. É multiplicar a capacidade de produzir riqueza.
Soberania também exige escolher com quem caminhamos
Presidente Lula, soberania não significa tratar todas as alianças como moralmente equivalentes.
O Brasil é uma democracia ocidental. Nossa formação institucional, cultural e jurídica está profundamente ligada às tradições judaico-cristã e greco-romana, ao constitucionalismo, à economia de mercado e às liberdades individuais.
Isso não significa virar as costas para China, Rússia, Oriente Médio, África ou qualquer outra região. O Brasil deve comerciar com o mundo inteiro. A China é nosso maior parceiro comercial e seria absurdo ignorar sua importância econômica.
Mas comerciar não é alinhar-se. Dialogar não é legitimar. E manter relações diplomáticas não significa conferir equivalência moral a democracias e ditaduras.
Não é coerente chamar de “subserviência” ou “entreguismo” a aproximação com democracias ocidentais com as quais compartilhamos séculos de vínculos culturais, econômicos e institucionais e, ao mesmo tempo, revestir de expressões como “Sul Global”, “multipolaridade” ou “cooperação Sul-Sul” a aproximação política com regimes que perseguem opositores, censuram a imprensa, restringem eleições ou violam sistematicamente liberdades individuais.
Política externa não pode ser apenas uma planilha comercial.
Uma pessoa pode encontrar um excelente preço para um carro ou celular roubado. Isso não transforma a compra num bom negócio, porque existem considerações anteriores ao preço: a origem, a legalidade e aquilo que nossa decisão ajuda a sustentar.
Com Estados ocorre algo semelhante. O Brasil pode e deve negociar com países dos quais discorda. Mas existe enorme diferença entre negociar por interesse nacional e oferecer prestígio, solidariedade política ou legitimação internacional a regimes autoritários.
Soberania não é trocar Washington por Pequim, Moscou, Teerã, Havana ou Caracas.
É saber negociar com todos sem esquecer quem somos, quais valores defendemos e quais linhas uma democracia não deveria atravessar.
Presidente, de um tempo a narrativa
E, para terminar, presidente Lula, eu gostaria de voltar ao ponto que você repetiu tantas vezes durante este debate. Onde foram parar os R$ 134 milhões? Repetiu o número como se sua repetição fosse, por si mesma, demonstração de crime.
A resposta já foi dada diversas vezes: os recursos efetivamente repassados foram destinados ao financiamento do filme Dark Horse. Mas se a resposta não te agrada, repetir a pergunta não muda os fatos, nem transforma suspeita em condenação.
E já que estamos falando de Daniel Vorcaro, presidente, explique então a sua própria relação com ele: por que o controlador de um banco submetido à fiscalização do Estado foi recebido por você no Palácio do Planalto, fora da agenda oficial, numa reunião da qual participou também o homem que você havia indicado para presidir o Banco Central?
Essa pergunta, presidente, quem ainda precisa responder é você.
Você chegou pela primeira vez à Presidência em 2003. Governou oito anos. Escolheu sua sucessora. Seu partido permaneceu no poder até 2016. E você voltou à Presidência em 2023.
Durante o período governado pelo PT, tivemos Mensalão, Lava-Jato, Petrolão, INSS, Banco Master, dentre tantos outros escândalos e exemplos de desgoverno.
Depois de tanto tempo, presidente, já não é possível governar eternamente como se desconhecesse os esquemas de corrupção e estivesse chegando ontem ao Palácio do Planalto.
Nem reivindicar para si tudo aquilo que deu certo e atribuir a terceiros tudo aquilo que deu errado.
Você gosta de se apresentar como pai dos pobres. Talvez seja justamente aí que esteja uma das maiores diferenças entre nossas concepções de país. O pobre não precisa de pai falso. Precisa de oportunidade. Precisa de educação. Precisa de emprego produtivo. Precisa de segurança. Precisa de moeda que preserve seu poder de compra. Precisa de crédito. Precisa poder abrir uma empresa sem pedir licença ao Estado para respirar. Precisa poder comprar sua casa. Poupar. Investir. Acumular patrimônio. E precisa ter a possibilidade de deixar aos filhos uma vida melhor do que recebeu de seus pais.
O objetivo de um governo não deveria ser transformar a pobreza numa relação permanente entre governante e governado. Deveria ser tornar cada vez menos necessária essa relação. Por isso, quando você diz que é o pai dos pobres, eu lhe responderia: presidente, depois de tanto tempo no poder, talvez seja hora de perguntar por que ainda existem tantos filhos precisando do mesmo pai.
Você é pai. É filho. É avô. É tio do pobre. A pobreza está sempre presente em teu discurso.
Ela justifica mais Estado. Mais gasto. Mais benefício. Mais intervenção. Mais poder. Mas depois de tantos anos surge uma pergunta inevitável: quantos pobres teu modelo efetivamente transformou em cidadãos prósperos, independentes do Estado, capazes de construir patrimônio e escolher seu próprio futuro?
Não quero um Brasil em que o pobre precise agradecer eternamente ao presidente. Quero um Brasil em que ele não precise saber o nome do presidente para prosperar. E talvez seja por isso que a palavra que mais tenha faltado neste debate seja prosperidade.
Não distribuição. Prosperidade.
Não benefício. Prosperidade.
Não dependência. Prosperidade.
Não igualdade na pobreza. Prosperidade.
Pobreza não é patrimônio político. É uma condição humana que precisa ser superada.
Tenha vergonha, presidente
Então, presidente Lula, depois de passar este debate apontando o dedo, fazendo acusações e demonstrando indignação, talvez tenha chegado a hora de olhar também para a própria história. Dê um tempo à narrativa. Dê um tempo aos slogans.
Dê um tempo à tentativa de transformar toda crítica em perseguição, todo adversário em fascista, toda discordância em ameaça à democracia e toda responsabilidade pelos problemas brasileiros em herança de alguém que governou antes.
Depois de mais de duas décadas desde sua primeira posse, já não existe narrativa capaz de apagar o tempo. O tempo mede. E comparar exige medir. Meça o Brasil contra aquilo que ele poderia ter sido. Meça nossa produtividade. Meça nossa renda per capita. Meça nosso investimento. Meça nossa dívida. Meça nossa infraestrutura. Meça nossa educação. Meça o crescimento da China. Meça o crescimento da Índia. Meça as oportunidades que outros países aproveitaram enquanto nós desperdiçávamos as nossas.
E então faça algo que talvez seja muito mais difícil do que participar de outro debate: faça um exame de consciência.
Você já tem idade, experiência e tempo de poder suficientes para olhar para trás e perguntar não apenas aquilo que acredita ter feito pelo Brasil, mas quanto o Brasil deixou de ser durante o período em que você foi um de seus principais protagonistas políticos.
Quantas oportunidades foram desperdiçadas? Quantos erros foram repetidos? Quanto custou a corrupção? Quanto custou a má gestão? Quanto custou o aparelhamento? Quanto custou a baixa produtividade? Quanto custou acreditar que distribuir riqueza pudesse substituir a obrigação de criá-la?
E, principalmente: quanto custou tudo isso às gerações de brasileiros que só terão uma vida para viver?
É muito fácil governar em nome dos pobres. Muito mais difícil é construir um país em que eles deixem de ser pobres.
É muito fácil distribuir aquilo que outros produziram. Muito mais difícil é criar as condições para que milhões produzam mais.
É muito fácil criar uma narrativa. Muito mais difícil é criar prosperidade.
Por isso, presidente, antes de perguntar pela quarta vez onde foram parar R$ 134 milhões de um filme, responda pela oportunidade histórica que o Brasil teve durante todos esses anos.
Não estou lhe pedindo outra narrativa. Estou lhe pedindo que olhe os resultados. E, diante deles, tenha a humildade de reconhecer os erros.
Porque um homem público pode errar. Pode reconhecer. Pode aprender. Pode se aposentar.
O que não pode é passar décadas no centro do poder, apresentar-se eternamente como solução para os problemas que atravessaram seus próprios governos e continuar convencido de que a responsabilidade pertence sempre aos outros.
Tenha vergonha, presidente. Não vergonha de ter sido pobre. Não vergonha de sua origem. Não vergonha das pessoas que acreditaram em você.
Tenha vergonha das oportunidades desperdiçadas. Tenha vergonha de cada vez que a narrativa tentou ocupar o lugar dos fatos. Tenha vergonha de um país extraordinariamente rico em possibilidades continuar tão pobre em resultados.
E, sobretudo, tenha vergonha se, depois de tanto tempo, ainda acreditar que o brasileiro pobre precisa de um pai. Ele não precisa de um pai. Precisa que o Estado pare de comprometer seu direito à prosperidade.
Adriano Amaral
CEO da Arthur D. Little do Brasil
Mestre em Economia e Administração de Empresas pelo IESE Business School
Ex-Secretário de Estado de Desenvolvimento Econômico do Distrito Federal
Professor do Ibmec, FGV e IESE.2




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