top of page

A nova geopolítica da comida: o que a China está ensinando ao agro brasileiro

Vozes de Brasília
2 de out.
5 min de leitura
Por Ernane Neto
Por Ernane Neto

Durante muito tempo, falar em segurança alimentar significava responder a uma pergunta simples: temos comida suficiente para alimentar a população?

Hoje, essa pergunta já não é suficiente.



Uma guerra pode interromper o fornecimento de fertilizantes. Uma crise logística pode atrasar uma safra. Uma pandemia pode parar fábricas. Uma mudança tecnológica pode alterar o consumo de proteínas.



Por isso, uma nova questão ganhou espaço no mundo:


Quem terá capacidade de garantir alimentos quando o cenário mudar?


Dois estudos recentes ajudam a entender essa transformação. Um deles, do Insper Agro Global, analisa a evolução da segurança alimentar chinesa.


O outro, da empresa holandesa Vaess, mostra como a indústria de alimentos está mudando seus ingredientes, suas formulações e suas estratégias.

Embora tenham enfoques diferentes, os dois estudos apontam para uma mesma direção: o futuro da alimentação será cada vez mais ligado à tecnologia, à segurança de abastecimento, à eficiência e à capacidade de adaptação.



E o Brasil tem tudo a ver com essa história.


A China quer reduzir seus riscos

A China possui cerca de 20% da população mundial, mas apenas 8% das terras aráveis e 6% da água doce do planeta.

Essa realidade ajuda a explicar por que o país sempre precisou combinar produção doméstica com importações.



A soja é um dos principais exemplos. Com o crescimento econômico, a urbanização e o aumento do consumo de proteína animal, a China passou a depender fortemente de soja e milho para alimentar sua produção de carnes.



Ao longo das últimas décadas, isso aproximou ainda mais a China de grandes produtores agrícolas, especialmente o Brasil e os Estados Unidos.



Mas o cenário mudou.


A guerra comercial entre China e Estados Unidos, a pandemia de Covid-19 e a guerra na Ucrânia mostraram que as cadeias globais podem ser afetadas por acontecimentos que estão muito além da agricultura.


A China passou, então, a tratar a segurança alimentar também como uma questão estratégica.

O objetivo não é simplesmente deixar de importar alimentos.



É produzir mais internamente, aumentar a produtividade, diversificar fornecedores e diminuir vulnerabilidades.



O 15º Plano Quinquenal chinês, para o período de 2026 a 2030, reforça investimentos em sementes, mecanização, biotecnologia, agricultura de precisão e gestão digital.



A mensagem é clara: para a China, tecnologia passou a ser parte da segurança alimentar.



A comida está ficando mais tecnológica


Essa transformação não acontece apenas nos governos.

A indústria de alimentos também está passando por uma mudança importante.



Segundo o relatório da Vaess, os fabricantes enfrentam uma combinação cada vez mais difícil de demandas:

consumidores querem produtos mais saudáveis e sustentáveis; varejistas exigem mais transparência; os custos continuam pressionados; e as empresas precisam lançar e reformular produtos cada vez mais rapidamente.



O problema é que todas essas exigências precisam caber no mesmo produto.


Ele precisa ter bom sabor, boa textura, preço competitivo, estabilidade, validade adequada e, cada vez mais, uma história sustentável que possa ser comprovada.


É uma equação complicada.

Por isso, inovação na indústria de alimentos deixou de ser apenas a criação de um produto novo.


Inovar passou a significar encontrar uma maneira melhor de produzir, formular e entregar alimentos.


A próxima fronteira está nas proteínas


É justamente nesse ponto que os dois estudos se encontram de maneira muito interessante.

Na China, o aumento da renda mudou os hábitos alimentares. O consumo de proteínas animais cresceu, aumentando também a importância da soja e do milho para a alimentação animal.



Agora, o país busca maneiras de melhorar a eficiência desse sistema e reduzir vulnerabilidades.



Na indústria, a busca segue uma direção semelhante.

O relatório da Vaess aponta o crescimento de soluções que combinam proteínas animais, vegetais e proteínas produzidas por processos de fermentação.



Não significa necessariamente substituir completamente uma proteína por outra.


A tendência é buscar combinações que consigam equilibrar custo, sabor, qualidade, sustentabilidade e segurança de fornecimento.



Essa mudança merece atenção.

Talvez o futuro da proteína não seja simplesmente uma disputa entre carne e vegetal.

Pode ser um mercado muito mais diversificado, envolvendo produção animal, vegetais, fermentação, biotecnologia e novos ingredientes.



E a soja brasileira?


Aqui chegamos diretamente ao agronegócio brasileiro.

A China continuará sendo um mercado fundamental para o Brasil. As limitações de terra, água e outros recursos naturais chineses mantêm uma relação de complementaridade importante com a agricultura brasileira.


A soja é o principal exemplo.

Mas existe uma mensagem importante para o produtor e para o exportador brasileiro:

mercado grande não significa mercado parado.


A China está investindo para produzir mais com os recursos que possui e para utilizar melhor seus insumos.


O estudo do Insper apresenta um cenário de possível redução das importações chinesas de soja até 2030. Mas o próprio estudo faz uma ressalva importante: trata-se de um cenário elaborado pela consultoria Systemiq/Moore Foundation, e não de uma meta oficial do governo chinês.

Portanto, não é hora de fazer previsões apressadas.


É hora de acompanhar o movimento.


A soja continuará importante. Mas o mercado pode exigir, cada vez mais, produtividade, qualidade, rastreabilidade e capacidade de adaptação.



Não basta vender. É preciso provar


Outro ponto comum aos dois estudos é a importância crescente da rastreabilidade.



A indústria de alimentos está aumentando a exigência por informações sobre origem, qualidade, sustentabilidade, pegada de carbono e segurança dos ingredientes.



Isso também chegará cada vez mais forte ao agronegócio.

No futuro, não bastará dizer:

“Tenho soja para vender.”


Será cada vez mais importante dizer:


“Tenho soja, sei de onde veio, como foi produzida e consigo comprovar sua qualidade.”



Essa informação passa a fazer parte do próprio produto.

A origem, o processo de produção e a capacidade de comprovar aquilo que está sendo vendido tendem a ganhar importância nas relações comerciais.



O novo agro não venderá apenas toneladas


O Brasil já possui uma posição privilegiada no sistema alimentar mundial.

Temos produtores eficientes, escala, recursos naturais, tecnologia e capacidade exportadora.


Mas existe espaço para avançar.


A relação entre Brasil e China já vai muito além da compra e venda de commodities. Envolve também máquinas, fertilizantes, questões sanitárias, logística, tecnologia e inovação.


Isso abre uma oportunidade para o Brasil olhar para toda a cadeia.


Não apenas para a produção.

Não apenas para a exportação.

Mas também para processamento, ingredientes, proteínas, tecnologia, informação e agregação de valor.


A pergunta que precisamos fazer começa a mudar.

Durante muito tempo perguntamos:


Quanto o Brasil consegue produzir?


Depois perguntamos:

Quanto conseguimos exportar?

Agora precisamos acrescentar:

Quanto valor conseguimos gerar a partir de cada tonelada que produzimos?



O futuro começa no campo, mas não termina nele

Os dois estudos mostram uma transformação que merece atenção.



A China está tratando a segurança alimentar como uma questão estratégica.

A indústria está tratando inovação e segurança de abastecimento como questões fundamentais para sua competitividade.



O consumidor quer mais transparência.

E a tecnologia está entrando em praticamente todas as etapas da cadeia.

No final, tudo se conecta:

campo, indústria, tecnologia, comércio exterior e geopolítica passaram a fazer parte da mesma conversa.



Para o Brasil, a oportunidade é enorme.


Não podemos pensar apenas em ser o celeiro do mundo.

Precisamos participar também da construção do sistema alimentar do futuro.



Isso significa produzir com eficiência, agregar valor, investir em tecnologia, conhecer os mercados e construir relações comerciais de longo prazo.



Porque a próxima grande disputa do agronegócio talvez não seja apenas por quem produz mais.



Será também por quem consegue produzir melhor, entregar com segurança e transformar produção em valor.

E o Brasil já possui uma das principais cartas desse novo jogo.

O desafio agora é saber como jogá-la.



Ernane Neto Colunista do Vozes de Brasília
Ernane Neto Colunista do Vozes de Brasília



 
 
 

20 comentários


Alexandre Gouveia
03 de out.

Parabéns

Curtir
Ernane Neto
05 de out.
Respondendo a

Gratidão pela leitura!

Curtir

Lucas Rocha
02 de out.

Fiquei pensando que, se a China passar a comprar menos soja brasileira, talvez a primeira reação seja perguntar quem compraria esse excedente. Mas será que precisamos necessariamente encontrar outro comprador?

Podemos ampliar a produção de biodiesel ou direcionar parte da área para outras culturas, especialmente o milho. Em um cenário de maior instabilidade geopolítica no petróleo e de pressão sobre o diesel, a bioenergia abre uma avenida interessante, inclusive com o avanço do etanol em aplicações pesadas.

Talvez a questão não seja apenas para quem vender, mas o que mais podemos fazer com tudo aquilo que somos capazes de produzir.

Curtir
Alcebíades Santos da Silva
06 de out.
Respondendo a

Excelente reflexão, Ernane.

Talvez uma das principais lições desse movimento da China seja que vantagem competitiva não pode ser confundida com vantagem permanente.

O Brasil possui escala, produtividade e uma posição extraordinária no agronegócio mundial. Mas, quando um dos maiores compradores transforma segurança alimentar em estratégia de Estado — investindo em tecnologia, produtividade, diversificação de fornecedores e redução de dependências — surge também uma questão estratégica para nós.

Não basta perguntar quanto conseguimos produzir ou exportar. Precisamos perguntar quanto valor conseguimos capturar ao longo da cadeia.

Isso passa por processamento, tecnologia, rastreabilidade, logística, inteligência de mercado e industrialização. Em outras palavras, por transformar parte da nossa vantagem agrícola em vantagem econômica e industrial.

E há também uma perspectiva de gestão…

Curtir

Vívian Felipe
02 de out.

Estudo muito pertinente!

O ponto de reflexão é que enquanto o Brasil for emergente ficará refem da macroeconomia. Temos uma grande cadeia de produção e escalável é claro que não somos autossuficientes em tudo e isso vale para os países desenvolvidos! A geopolítica muitas vezes não ajuda e conflitos internos impacta o todo, A fragilidade é tão grande que pontos pequenos podem impactar toda a cadeia. Como resolver isso? Política clara, estratégias bem definidas, representantes capacitados e principalmente um senso comum que beneficie o todo. Estamos ainda patinando o mundo não está preparado para uma turbulência a pandemia foi a prova disso. A fragilidade a cerca dessas relações deveria ser o maior ponto de atenção.

Curtir
Ernane Neto
02 de out.
Respondendo a

Vívian Felipe Belo comentário! Tratar a fragilidade geopolítica como o maior ponto de atenção é a leitura de risco macro que as bancas de negócios precisam ter.

Curtir

MAURICIO BARBOSA GOMES
02 de out.

Muito bem elaborado o estudo, parabéns. Gostaria de ressaltar que no 15º Plano Quinquenal chinês, para o período de 2026 a 2030, a China pensa em diminuir a dependência de fora para alimentar a população e imagino que eles consigam. Efeito após isso, 50 % da soja que o Brasil vende é para lá, suponhamos que diminua para 30%, para onde venderíamos o restante? E o preço tende a diminuir, lei da oferta e procura. Se não tiver a rastreabilidade e respeitando as normas ambientais vai ser muito difícil continuar no mercado.

Curtir
Ernane Neto
02 de out.
Respondendo a

Gratidão meu amigo por fazer essa análise e trazer seu ponto de vista!

Curtir

elos business club
02 de out.

Observações muito pertinentes. Hoje, vivemos em um mundo cada vez mais globalizado, e a geopolítica nos apresenta novas tendências e desafios.

Parabéns pelas excelentes observações!

Curtir
André
02 de out.
Respondendo a

Prezado, Ernani, obrigado por compartilhar estas informações, seu conhecimento e ponto de vista.

É necessário que o Brasil esteja atento a esta tendência de rastreabilidade e agregue valor nos produtos brutos vendidos, pois há países que compram o produto bruto do Brasil agregam valor e revendem para o próprio Brasil e outros países. Um olhar e incentivos para indústria Brasileira, podem ajudar a viabilizar.

Curtir
bottom of page