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Perderam a vergonha

Vozes de Brasília
há 1 hora
13 min de leitura
Por Adriano Amaral
Por Adriano Amaral

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Perderam a vergonha


Por Adriano Amaral


O problema do Brasil já não é apenas a corrupção associada a Lula, ao PT e aos grupos que retornaram ao centro do poder. É também a cumplicidade de quem deveria fiscalizá-los, a covardia de quem conhece os abusos e prefere calar-se e a anestesia moral de uma parcela da sociedade condicionada a aceitar, e até a celebrar, aquilo que antes dizia considerar inaceitável.


Lula e seus aliados escaparam da cadeia, recuperaram cargos, mandatos, influência, contratos e acesso aos cofres públicos. O resultado oficialmente proclamado lhes entregou mais uma eleição. Mas proclamar um vencedor não encerra as perguntas sobre o caminho que produziu a vitória, sobretudo quando as próprias circunstâncias do pleito foram tão extraordinárias.


Lula foi proclamado reeleito para um quarto mandato com 51,79% dos votos válidos. Receberá de si mesmo uma herança caótica, com país endividado, caro, institucionalmente exausto e moralmente anestesiado. A taxa básica de juros está em 13,75% ao ano. A inflação permanece acima da meta. A dívida bruta chegou a 82,9% do PIB. Em doze meses, o déficit nominal alcançou R$ 1,264 trilhão, equivalente a 9,48% do PIB, e os juros consumiram R$ 1,182 trilhão.


Este é o legado de quem pretende apresentar a própria permanência no poder como vitória da democracia: um Estado que compromete o futuro, uma economia que trabalha para pagar juros e uma sociedade cada vez mais dependente do governo que a empobrece.


Uma eleição que não pode ser declarada acima de qualquer dúvida


O resultado oficial não pode ser tratado como dogma religioso. Nenhum sistema tecnológico é inviolável. Nenhuma instituição humana é infalível. E nenhuma autoridade democrática tem o direito de exigir fé onde tem o dever de oferecer verificação.


Flávio Bolsonaro venceu o primeiro turno com 56.104.503 votos. Lula recebeu 53.879.538. Três semanas depois, Lula apareceu com 64.256.232 votos: um acréscimo de 10.376.694. Flávio chegou a 59.826.041: crescimento de apenas 3.721.538. A diferença de 2,22 milhões em favor de Flávio converteu-se em vantagem de 4,43 milhões para Lula. A reversão relativa foi de 6,66 milhões de votos.


De onde vieram os 10,38 milhões de votos adicionais atribuídos a Lula?


Entre os dois turnos, a redução líquida das abstenções, dos votos brancos e dos votos nulos somou aproximadamente 4,78 milhões. Mesmo na hipótese extrema de que todos esses votos tenham migrado para Lula e nenhum para Flávio, ainda faltariam 5,59 milhões. Eles teriam de sair dos 9,32 milhões de eleitores que haviam escolhido candidatos eliminados. Isso significa que Lula precisaria conquistar cerca de 60% desses votos.


A aritmética fecha. A explicação política, não.


Renan Santos, Ronaldo Caiado e Romeu Zema, candidatos situados à direita ou ao centro-direita, somaram aproximadamente 5,61 milhões de votos. Caiado e Zema chegaram a declarar apoio a Flávio no segundo turno. Tarcísio de Freitas fez o mesmo. Dos 21 governadores eleitos no primeiro turno, 12 declararam apoio a Flávio e cinco a Lula.


Os partidos alinhados a Flávio elegeram a maioria da Câmara e do Senado. Nikolas Ferreira acabara de receber cerca de 3,12 milhões de votos para deputado federal, demonstrando uma capacidade de mobilização incomparavelmente superior à dos principais operadores digitais da campanha petista.


Apesar disso, Lula conquistou quase três vezes mais votos adicionais que Flávio.


Não houve, nas três semanas do segundo turno, ruptura partidária, escândalo decisivo ou colapso da candidatura de Flávio que explicasse a mudança. Não surgiu qualquer fato extraordinariamente favorável a Lula. As principais pesquisas finais: Datafolha, Quaest, AtlasIntel e BTG/Nexus, apontavam vantagem numérica de Flávio. Ele havia vencido o primeiro turno, recebeu o apoio dos principais candidatos eliminados de direita e chegou à votação final com uma coalizão ampliada.


Desde 1989, o vencedor do primeiro turno havia vencido todas as eleições presidenciais decididas no segundo. Em 2026, pela primeira vez, o segundo colocado reverteu o resultado. E não o fez por diferença mínima: transformou uma desvantagem de 2,22 milhões em vantagem de 4,43 milhões.


Outra análise dos microdados oficiais identificou 8.632.488 eleitores cuja habilitação não ocorreu por reconhecimento biométrico, número quase duas vezes superior à diferença final entre os candidatos. Isso não demonstra, por si só, voto irregular, pois a legislação permite outras formas de identificação; mas a dimensão do contingente exige auditoria independente, desagregada por seção e comparada com eleições anteriores, especialmente onde coincidem altas taxas de liberação não biométrica, baixa fiscalização partidária e votações excepcionalmente concentradas.


Nada disso, isoladamente, prova fraude. Mas tudo isso, em conjunto, torna intelectualmente desonesto afirmar que não se pode ter dúvidas quanto à lisura do processo eleitoral ou que não existe nada a explicar.


Democracias seguras não temem estatísticas desconfortáveis. Publicam os dados, permitem que pesquisadores independentes reproduzam as análises e respondem às perguntas. Quem confia no sistema deveria ser o primeiro a desejar a auditoria mais ampla possível.


O problema brasileiro é a tentativa de converter confiança em obediência. A Justiça Eleitoral afirma que o sistema é seguro e espera que a própria afirmação funcione como prova definitiva. Quem pergunta é tratado como inimigo das instituições. Quem pede mecanismos adicionais de verificação é acusado de atacar a democracia. A dúvida, em vez de ser respondida, é moralmente criminalizada.


Os boletins de urna e os dados desagregados permitem análises importantes, mas não resolvem sozinhos o problema da auditabilidade do voto. Inspeção controlada, contudo, não equivale a auditabilidade pública e reproduzível. Tampouco substitui uma evidência física do voto que permita ao eleitor conferir sua escolha e possibilite recontagem independente sem violação do sigilo.


O sistema alemão não se tornou menos democrático por exigir controle público compreensível. O Brasil é que adotou a estranha doutrina segundo a qual pedir mais transparência seria uma agressão à democracia.


Um sistema pode ser tecnicamente seguro e ainda assim ser politicamente incapaz de produzir confiança. E quanto mais as autoridades censuram, intimidam ou ridicularizam quem pergunta, mais alimentam a suspeita que dizem combater.


O país que perdeu o direito de prosperar


O desemprego oficial está baixo. Mas transformar esse número em certificado de prosperidade é outra fraude narrativa. A taxa não mede como emprego quem desistiu de procurar trabalho. Não revela, sozinha, informalidade, desalento, produtividade, qualidade da renda nem dependência de transferências públicas. Um governo deveria comemorar quantas pessoas deixaram de precisar de benefícios, não quantas conseguiu manter vinculadas a eles. Bolsa Família deveria ser ponte para a autonomia, não instrumento permanente de administração política da pobreza.


O Brasil não nasceu para comemorar crescimento de 1,9%. Não é uma economia madura, rica e demograficamente estabilizada. É um país emergente com território continental, energia, água, alimentos, minérios, mercado interno, empresários, trabalhadores e uma posição geopolítica privilegiada. Tinha condições e obrigação de viver longos períodos de expansão acelerada, como fizeram China e Índia. Em determinados anos, elas cresceram perto ou acima de dois dígitos enquanto o Brasil com Lula se acostumava a festejar mediocridade.


Não nos faltaram recursos. Faltou governo. Faltou seriedade. Sobrou corrupção, desperdício, intervencionismo e um projeto de poder que descobriu ser mais fácil distribuir dependência do que construir prosperidade.


Cada ponto de crescimento perdido representa empresas que não nasceram, empregos que não foram criados e famílias que não ascenderam. Representa hospitais, escolas, estradas e sistemas de segurança que não foram financiados. Representa milhões de jovens lançados na vida adulta sem oportunidades. A vida não oferece reposição. Uma geração submetida à estagnação não recupera os anos roubados por discursos, programas assistenciais ou promessas na eleição seguinte.


O lulopetismo não nos roubou apenas dinheiro. Roubou tempo histórico. Institucionalizou a corrupção e corrompeu as instituições. Comprometeu o direito de uma geração buscar a prosperidade e matou até a antiga esperança de que o Brasil finalmente se tornaria o país do futuro.


A indignação como encenação


Nos debates, Lula voltou a interpretar seu personagem mais cínico: o homem indignado. Acusou Flávio de mentir, chamou-o de “miliciano” e repetiu insistentemente: “Onde estão os R$ 134 milhões?”


A pergunta foi usada como sentença. Lula afirmou que Flávio havia “pegado” R$ 134 milhões de Daniel Vorcaro, embora as informações disponíveis indicassem que o valor estava relacionado ao financiamento privado do filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro. Há perguntas legítimas sobre a origem, o destino e a regularidade de cada pagamento, e elas devem ser investigadas. Mas pedir recursos privados para um filme privado não configura corrupção. Seria necessário demonstrar vantagem indevida, dinheiro ilícito, contrapartida pública, lavagem, fraude ou outro crime.


Lula sabia disso. Preferiu repetir o número como acusação consumada.


Ao mesmo tempo, Daniel Vorcaro, controlador de um banco submetido à supervisão estatal, foi recebido por Lula no Palácio do Planalto em uma reunião fora da agenda oficial. O encontro contou com Guido Mantega, ex-ministro petista e consultor ligado ao Master, e Gabriel Galípolo, escolhido por Lula para presidir o Banco Central. De um lado, uma captação privada para uma produção privada. Do outro, o Presidente da República recebendo, sem registro na agenda, o dono de um banco regulado pelo Estado e acompanhado de pessoas com influência direta sobre o sistema financeiro.


Não são fatos equivalentes. O segundo é institucional e incomparavelmente mais grave.


Mesmo assim, Lula representava indignação, apontava o dedo e chamava o adversário de mentiroso. O homem que foi condenado em sucessivas instâncias e voltou à eleição porque seus processos foram anulados por questões de competência e parcialidade do juiz, não porque uma sentença tivesse declarado inexistentes os fatos, exigia explicações alheias como se carregasse uma biografia imaculada.


A seletividade fica ainda mais evidente quando se observa o tratamento dispensado a Lulinha. O filho do presidente, investigado em três inquéritos por suspeitas de corrupção e tráfico de influência, teve os sigilos bancário, fiscal e telemático quebrados e vive na Espanha desde 2025. O relator da CPI do INSS chegou a pedir sua prisão preventiva por risco de fuga. Por que, diante desses elementos, não houve retenção de passaporte nem cautelar equivalente, enquanto a medida contra Flávio Bolsonaro foi decretada imediatamente depois da eleição? A lei deveria medir o risco concreto, não o sobrenome nem o campo político do investigado.


Em Lula, a mentira não é um desvio ocasional; tornou-se método político. Diante da repressão, do êxodo e do colapso econômico venezuelano, chamou o autoritarismo de Maduro de “narrativa” construída contra o regime e recomendou ao ditador que criasse também a sua própria narrativa. Quando os fatos condenam seus aliados, Lula não propõe mudar a realidade: propõe substituí-la por uma versão conveniente.




Nos diversos escândalos, como o da Lava Jato, houve investigações, confissões, acordos de colaboração, dinheiro devolvido e condenações. Houve um sistema de apropriação do Estado que atravessou estatais, empreiteiras, partidos e governos. Mas Lula reapareceu no palco como acusador moral.


Haja cara de pau. Perderam a vergonha.


A licença para difamar um lado


O problema é o regime de tolerância absoluta para um lado e intolerância total para o outro.


Durante anos, chamou-se Jair Bolsonaro e praticamente toda liderança relevante da direita de fascista, genocida, golpista, miliciano, negacionista, extremista e ameaça à democracia. Acusações gravíssimas foram repetidas como descrições objetivas. Não se exigia sentença, nexo causal, semântica ou demonstração cuidadosa. Bastava o rótulo servir ao campo político autorizado.


Quando a direita formula uma dúvida sobre a eleição, pede auditoria ou denuncia abuso judicial, a exigência muda. Cada frase precisa vir acompanhada de prova definitiva, produzida dentro de um sistema que restringe o acesso aos meios capazes de produzi-la. A imprensa exige do questionador aquilo que nunca exigiu do acusador quando o alvo era a direita.


Esse padrão produz uma fraude moral. De um lado, a presunção de culpa. Do outro, a presunção de santidade. Um adversário pode ser chamado de genocida em manchetes, salas de aula, palcos e programas de televisão. Lula, porém, deve ser tratado como estadista, mesmo depois de tudo o que o país assistiu.


Um embaixador amigo, homem culto e veladamente eleitor de Lula, resumiu a falência moral dessa escolha: “Lula é um merda, mas o outro é inaceitável.”


A frase confessa tudo. Não há admiração por Lula. Não há defesa de sua integridade. Há apenas a aceitação dos rótulos fabricados contra o outro lado. Admite-se que Lula é moralmente indefensável, mas vota-se nele porque a máquina cultural decretou que qualquer alternativa à direita seria ainda pior.


É assim que uma sociedade perde a vergonha: primeiro admite o mal, depois o relativiza e, por fim, passa a exibi-lo com orgulho.


O orgulho de apoiar o indefensável


Depois da eleição, reapareceram carros com bandeiras do PT, adesivos de Lula, comemorações nas ruas e manifestações públicas de orgulho. Pessoas que durante anos escondiam ou justificavam o voto passaram a ostentá-lo. Não porque os escândalos tenham sido esclarecidos. Não porque o dinheiro tenha deixado de ter sido devolvido. Não porque as condenações tenham se transformado em julgamentos de inocência. Simplesmente perderam o constrangimento.


A imagem da comemoração na Avenida Paulista resume essa transformação moral e simbólica. Uma multidão coberta de vermelho, cercada por bandeiras do PT, sem que se visse uma única bandeira do Brasil. Não comemoravam o país: comemoravam a conquista do país por um partido. O verde e o amarelo, cores nacionais, foram tratados durante anos como símbolos suspeitos, enquanto o vermelho partidário passou a ocupar as ruas como a bandeira de uma nova identidade. Que ruptura é essa que precisa apagar os símbolos da própria nação para celebrar uma vitória eleitoral? Que espécie de patriotismo rejeita a bandeira brasileira e se veste com as cores de uma facção? Não lhes bastou devolver ao poder um homem marcado pelos maiores escândalos de corrupção de nossa história. Era preciso transformar essa volta em espetáculo, exibir o vermelho e ostentar como virtude aquilo que, até pouco tempo atrás, ainda tentavam justificar em voz baixa.


Há nisso mais do que preferência política. Há uma inversão estética e moral: despreza-se o que representa ordem, pertencimento e construção nacional, enquanto se cultuam a ruptura, o ressentimento e tudo o que rebaixa o país. Não é apenas a idolatria de um líder ou de um partido. É a celebração do feio como rebeldia contra tudo aquilo que ainda presta.


O lulismo conseguiu inverter a vergonha. Quem apoia o personagem central do maior sistema de corrupção já revelado no Brasil se apresenta como moralmente superior. Quem o rejeita é que deve explicar que não é fascista, genocida ou inimigo da democracia.


Essa inversão só foi possível porque grande parte da imprensa, das universidades, dos artistas e dos chamados intelectuais abandonou qualquer pretensão de coerência. A corrupção deixou de ser um mal objetivo e passou a ser um detalhe comparável a qualquer acusação contra o adversário. O critério já não é o fato, mas a identidade política de quem o pratica.


O que choca e é especialmente grave no caso brasileiro não é apenas o comportamento daqueles que, em nome da democracia, violaram garantias fundamentais, perseguiram adversários e submeteram as instituições à conveniência de um projeto político. É a capitulação ampla, geral e irrestrita de quem deveria denunciar esses abusos: a imprensa amestrada, os pseudointelectuais, parte dos professores e os artistas que se transformaram em agentes de legitimação ideológica do lulopetismo.


A imprensa deveria ser o primeiro freio contra a destruição da democracia. No Brasil, parte dela ajudou a remover esses freios enquanto afirmava estar defendendo-os. Não investiga Lula e seus aliados: protege-os. Não confronta suas versões: reproduz as que lhes convêm. Não fiscaliza as instituições que os favorecem: legitima seus abusos. Não informa o cidadão: administra aquilo que ele está autorizado a saber — e, por consequência, aquilo que deve pensar.


Em nome da democracia, relativizaram a liberdade de expressão, toleraram a censura, normalizaram julgamentos de exceção, aceitaram a perseguição política e transformaram garantias constitucionais em privilégios concedidos apenas aos aliados. Apropriaram-se da palavra, esvaziaram seu significado e passaram a utilizá-la como salvo-conduto moral para práticas que a própria democracia existe para impedir. Alegando defendê-la, massacraram-na.


O isolamento internacional que fingimos não ver


O Brasil também perdeu o direito de tratar as críticas externas como simples folclore diplomático. Em julho de 2025, o governo dos Estados Unidos declarou oficialmente que ações do governo brasileiro constituíam uma "ameaça incomum e extraordinária" à segurança nacional, à política externa e à economia norte-americanas. A ordem executiva acusou autoridades brasileiras de censura, perseguição política, violações de direitos humanos e deterioração deliberada do Estado de Direito. É importante usar os termos corretos. O governo norte-americano não classificou formalmente o Brasil como estado "narco-cepto-terrorista". Fez algo suficientemente grave: declarou emergência nacional em resposta a atos do governo brasileiro e afirmou que essas práticas eram repugnantes aos valores políticos e morais das sociedades livres e democráticas.


Em vez de refletir sobre o tamanho da degradação necessária para que o maior país da América Latina recebesse esse tratamento, o governo preferiu recorrer ao nacionalismo de ocasião e acusar interferência estrangeira.


O caminho já é conhecido. Primeiro, captura-se a linguagem: toda oposição vira fascismo; toda crítica vira desinformação; toda investigação independente vira ameaça às instituições. Depois, enfraquecem-se os freios: o Judiciário avança, o Congresso recua e a imprensa aplaude.


Por fim, transforma-se dependência econômica em lealdade política e censura em defesa da democracia. Venezuela e Cuba não chegaram ao autoritarismo em um único dia.


Chegaram por etapas, sempre acompanhadas de justificativas morais, inimigos oficiais e promessas de proteção aos pobres. O Brasil avança na mesma direção quando concentra poder, normaliza a censura, relativiza a corrupção e trata metade da população como inimiga legítima.


A marca da decadência


O Brasil chegou ao ponto em que o escândalo já não produz escândalo. Condenações anuladas são apresentadas como absolvições. Medidas de exceção tornam-se rotina. A censura, sempre ilegal, é introduzida como providência excepcional e provisória até adquirir caráter permanente. Investigações conduzidas sob sigilo servem de pretexto para impor restrições públicas a adversários políticos. A imprensa exige provas definitivas de quem questiona Lula, o PT e as instituições que os protegem, mas raramente exige transparência dessas mesmas instituições ou submete as acusações contra a direita ao mesmo padrão de rigor.


O absurdo foi repetido tantas vezes, defendido por tantas autoridades e legitimado por tantos jornalistas e intelectuais que passou a ser apresentado como parte natural da democracia. A exceção foi normalizada; a arbitrariedade, institucionalizada; e a submissão, rebatizada de responsabilidade democrática.


Não é normal.


Não é democrático considerar legítimo apenas o voto que favorece determinado campo político. Não é democrático transformar quase 60 milhões de eleitores em suspeitos morais ou inimigos da sociedade. Não é democrático encerrar perguntas por decreto, carimbo judicial ou consenso de redação.


A consciência e a vergonha são freios interior que impedem alguém de fazer tudo aquilo que o poder lhe permite. É o limite moral que atua antes da polícia, do juiz e da lei. Quando a vergonha desaparece, nenhuma Constituição basta.


Perderam a vergonha os que roubaram e depois voltaram à cena como vítimas, acusadores e autoridades morais.


Perderam a vergonha os que se beneficiaram da corrupção e agora discursam sobre justiça social como se nada tivesse acontecido.


Perderam a vergonha os que se silenciam diante dos abusos praticados pela esquerda e, ao mesmo tempo, se proclamam defensores da democracia.


Perderam a vergonha os jornalistas que abandonaram o dever de informar para proteger Lula e o PT, escolhendo quais fatos devem ser investigados, quais devem ser relativizados e quais precisam desaparecer.


Perderam a vergonha os intelectuais que abandonaram o pensamento crítico para servir à militância de esquerda, tratando seus dogmas como verdades e seus adversários como inimigos a serem silenciados.


Perderam a vergonha os políticos que conhecem os abusos do sistema, mas permanecem calados para preservar cargos, verbas, privilégios e conveniências.


E perdeu a vergonha uma parcela da sociedade que, depois de tudo o que viu, decidiu apoiar Lula não apesar da corrupção, mas indiferente a ela, e agora ostenta esse apoio como certificado de virtude.


Um resultado eleitoral oficialmente proclamado não transforma dúvida em crime, mentira em verdade, abuso em Justiça, incompetência em virtude nem corrupção em inocência. O anúncio do vencedor confere poder. Não concede absolvição moral nem torna o processo imune à questionamentos e investigação.


O Brasil só começará a sair do abismo quando recuperar a coragem de chamar as coisas pelo nome, exigir que cada voto possa ser verificado de forma independente e recusar a chantagem segundo a qual toda crítica ao poder seria um ataque à democracia.


Até lá, avançaremos rumo ao destino que um dia julgamos reservado à Venezuela e a Cuba: os que deveriam ter vergonha governam; os que deveriam fiscalizar obedecem; e aqueles que ainda se indignam é que precisam se explicar.



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