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O simbolismo do "Grito do Ipiranga" às novas gerações de brasileiros

Vozes de Brasília
há 4 dias
6 min de leitura
Sebastião Vitalino Divulgação Vozes de Brasília
Sebastião Vitalino Divulgação Vozes de Brasília


Ao ser retratada em monumental tela por Pedro Américo, "Independência ou Morte" e, em versos, constantes no Hino à Independência de Evaristo da Veiga, ambos imortalizam às margens do Ipiranga a imagem de uma libertação heroica, reluzente e unânime que, para alguns ligados à historiografia nacional, tratam a efeméride como mais um arranjo entre elites econômicas e políticas do que uma ruptura popular impulsionada pelo desejo visceral de soberania individual.


Por Sebastião Vitalino da Silva


Em 08/09/2026


Do eco histórico distante do "Grito do Ipiranga à liberdade falseada no século XXI


Ao contrário daqueles que criaram esse tipo de "narrativa" para desqualificar o fato histórico de que o Brasil se tornou independente de Portugal, conquistamos naquela ocasião a Independência sendo, portanto, essa a verdadeira questão.


Dessa forma, ao nos contrapor a todos aqueles que criam narrativas e tentam distorcer o fato histórico, em si, o que se viu às margens do Ipiranga, a independência política foi alcançada, mesmo que a liberdade individual e social não viesse prontas naquela ocasião e, nem poderiam, pois liberdade e independência são conquistadas.


Não obstante, o Brasil continuou a despeito das mazelas da escravidão, a desigualdade, a concentração de poder e a exclusão de grande parte da população da vida política. Sim, tudo isso foi muito ruim, porém tudo isso é história e passado, que não pode ser esquecido, porém, o que podemos fazer no presente para a construção de nosso futuro? Quem está nos impedindo de fazê-lo?


A história ensina, portanto, uma verdade que continua atual ao considerar que ser uma nação independente não significa necessariamente ser uma sociedade livre e se esse objetivo não está sendo alcançado, o que nos falta para modificar toda essa situação?


Liberdade não se resume em possuir uma bandeira, um território e um governo próprio e, sim, ela pressupõe cidadãos capazes de pensar, falar, criticar, discordar e participar da vida pública sem medo de represálias.


Ao que parece, para que conquistemos o sonho de liberdade, na atual cena, somente depende do povo brasileiro. No entanto, é justamente nesse ponto que o Brasil do século XXI enfrenta uma contradição preocupante.


Somos uma democracia constitucional, temos eleições periódicas e uma Constituição que protege os direitos fundamentais, porém, vivemos, também, uma das fases de maior polarização política da nossa história recente.


O adversário político deixou, muitas vezes, de ser simplesmente alguém que pensa diferente para se transformar em um inimigo que precisa ser eliminado como se isso fosse possível em um país plural e miscigenado como o Brasil, sendo isso as nossas maiores riquezas sociais e que nos diferenciam de outras culturas e países.


Na atual cena, infelizmente, e nesse ambiente de polarização, a liberdade passou a ser defendida de maneira seletiva, ou seja, quando alguém expressa uma opinião que confirma nossas convicções, chamamos de liberdade de expressão. Quando a opinião nos incomoda, rapidamente surgem acusações de desinformação, extremismo ou ameaça à democracia.


Com todos esses ingredientes e disfuncionalidade comportamental de alguns cidadãos brasileiros, nos evidencia que há no ceio da sociedade brasileira uma preocupante pobreza democrática.


Liberdade de expressão não existe para proteger apenas aquilo de que gostamos


O senso comum nos indica que a liberdade existe, principalmente, para proteger aquilo que nos incomoda. É evidente que nenhum direito é absoluto, afinal, há crimes que devem ser responsabilizados pois esses não podem ser confundidos com exercício legítimo da liberdade.


No entanto, não serão poderosos de plantão e encastelados em instituição de poder que irão nos impor isso, pois, o cidadão brasileiro não precisa ser tutelado para que ele saiba a diferença fundamental entre responsabilizar quem comete um crime. Além disso, não se pode conceder ao poderoso estatal, sem autorização do cidadão, a prerrogativa de decidir previamente sobre tudo aquilo que pode ou não ser dito.


No momento atual, essa diferença precisa ser respeitada. Por isso, o debate sobre a regulação das redes sociais tornou-se, nesse contexto, uma das questões mais delicadas da democracia brasileira.


É legítimo combater criminosos, fraudes, manipulação e campanhas deliberadas de desinformação, no entanto, não podemos jamais considerar a defesa à democracia como argumento ou justificativa para controlar a opinião pública.


Quando autoridades passam a determinar quais ideias podem circular, a pergunta inevitável é: - quem controla os controladores?


A experiência histórica demonstra que a censura raramente chega anunciando que pretende destruir a liberdade, até pois, muitas vezes, ela se apresenta como instrumento de proteção da sociedade, da democracia ou da própria verdade.


É aí que mora o perigo. Nenhuma instituição, por poderosa que seja, deveria possuir o monopólio da verdade. Nenhum governante deveria ter o poder de decidir quais críticas são legítimas. Nenhuma autoridade deveria ser imune ao escrutínio da imprensa e da sociedade. E nenhuma democracia pode sobreviver quando o cidadão começa a ter medo de falar.


Por isso, a liberdade de imprensa ocupa lugar central nessa equação. Uma imprensa livre precisa ter o direito de investigar e questionar governos, partidos, parlamentares, empresários, magistrados e qualquer outro centro de poder. Se a imprensa só puder publicar aquilo que agrada aos poderosos, ela deixa de cumprir sua principal função.


Da mesma forma, jornalismo responsável não significa jornalismo submisso. A imprensa tem o dever de informar com responsabilidade, checar fatos e ouvir diferentes versões, além de ter o direito de incomodar os poderosos de plantão. Portanto, uma imprensa, que não incomoda o poder, corre o risco de ter deixada de ser imprensa para se transformar em instrumento de propaganda.


O problema brasileiro não está apenas nas instituições -- e o povo?


É claro que o povo e a sociedade vigilantes têm papéis fundamentais na fiscalização dos diversos agentes públicos, notadamente, todos aqueles que conquistaram o voto do eleitor.


Ao mesmo tempo, devemos eliminar uma prática nociva a esse processo que é o de defender a liberdade somente quando ela favorece seu próprio campo político, afinal, querem liberdade para os seus e limites para os outros.


Defendem o contraditório quando são oposição, mas passam a considerá-lo inconveniente quando chegam ao poder.


Essa lógica é incompatível com uma democracia madura. O verdadeiro teste da liberdade não ocorre quando alguém diz aquilo que pensamos e sim quando alguém diz exatamente aquilo que não queremos ouvir.


Conquistamos a liberdade e a independência, mas não sabemos o que fazer


Por isso, o 7 de Setembro deveria ser mais do que uma celebração patriótica. A data deveria ser uma oportunidade para refletirmos sobre o significado contemporâneo das palavras independência e liberdade, afinal, o Brasil conquistou sua independência e se tornou livre de Portugal, mas, ao que parece, até os nossos dias ainda não se sabe bem o que fazer com elas.


E, o que é pior, por vezes, delegamos a outrem poderes para controlar a nossa liberdade individual. Com isso, emergem as questões:


· Será que o cidadão brasileiro conquistou plena independência diante dos poderes constituídos? - Será que pode criticar livremente quem governa? - Pode questionar decisões das instituições? - Pode discordar de ministros, parlamentares e governantes? - Pode defender uma ideia politicamente impopular sem ser imediatamente transformado em inimigo?


Essas perguntas não são pura provocação e buscam indicar a necessidade de proteção à jovem democracia brasileira, que carece de constante aperfeiçoamento e de um afastamento maior dos apedeutas guindados ao poder.


Com todos esses ingredientes, a liberdade não pode depender da simpatia de quem ocupa o poder; de mera concessão, favor e outorga de salvadores da pátria e de misericordiosos; não pode existir apenas para um lado do espectro político; e tampouco pode ser confundida com autorização estatal para pensar.


Por isso, ao perguntar se o brasileiro tem liberdade de imprensa atualmente, a resposta precisa ser cuidadosa.


Sim, juridicamente, a liberdade de imprensa é assegurada pela Constituição


Mas a existência de uma garantia constitucional não significa que a liberdade esteja definitivamente protegida contra as pressões, as ameaças, os excessos ou tentativas de controle. A despeito do que precede, caracteriza-se que a liberdade de imprensa não é uma concessão do Estado e sim uma condição essencial para fiscalizá-lo.


Nesse contexto, acredita-se que o cidadão brasileiro precisa compreender que a liberdade não é uma herança garantida para todo e sempre, mas, que, ao cultivá-la, ela pode ser ampliada, enfraquecida ou até mesmo perdida.


Portanto, ao relembrarmos a Independência de 1822, que rompeu as correntes políticas que ligavam o Brasil a Portugal, inspirados nesse marco histórico nacional, o cidadão brasileiro tem múltiplos desafios nessas primeiras décadas do século XXI que é o da constante luta pela liberdade e independência.


A grande tarefa do século XXI, portanto, é impedir que novas correntes, notadamente, as políticas, as ideológicas ou as institucionais, sejam utilizadas para limitar a consciência, a palavra e o pensamento do cidadão.


No fim das contas, a verdadeira independência começa quando o indivíduo livre e que pode pensar sem medo, falar sem tutela e discordar sem ser tratado como inimigo.


Acorda Brasil!


Vitalino Consultor


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