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Ainda podemos ficar indiferentes ante a corrupção em nosso país?

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    Vozes de Brasília
  • há 5 dias
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Sebastião Vitalino
Sebastião Vitalino


Antes de tudo, é preciso reconhecer que a percepção de que "os brasileiros não se incomodam com a corrupção" seria tirar uma conclusão precipitada de todo um grupo, sem apresentação de evidências e de informações, que detalhassem melhor tal assertiva, até pois, há presente na sociedade brasileira a opinião que indica que a corrupção figura entre as maiores preocupações da população.


Ao mesmo tempo, observa-se um fenômeno real apontando que a indignação, frequentemente, não se traduz em mobilização contínua, pressão política ou mudanças consistentes no comportamento eleitoral.



Por Sebastião Vitalino da Silva

Em 18/07/2026


A corrupção que deixou de escandalizar



Poucos países conviveram com tantos escândalos de corrupção quanto o Brasil nas últimas décadas, sendo, nesse sentido, evidenciados dos desvios em estatais às fraudes em licitações, dos esquemas de compra de apoio político às denúncias envolvendo diferentes níveis de governo, episódios todos esses que já deveriam ter produzido uma sociedade mais vigilante no país.



Ao contrário, o que se percebe, em muitos momentos, é algo ainda mais preocupante do que a própria corrupção, que é a gradual perda da capacidade de indignação e de ação combativa a esse mal que atinge a sociedade nacional.



Não se trata de afirmar que o brasileiro aprova a corrupção até pois algumas pesquisas de opinião mostram exatamente o contrário. Por isso, é claro que a maioria rejeita as práticas ilícitas e considera a corrupção um dos principais problemas nacionais.



Não obstante, o paradoxo está no fato de que essa rejeição raramente se converte em mobilização permanente, fiscalização constante dos agentes públicos ou punição política consistente nas urnas dos envolvidos pois, comumente, se observa que, a indignação, muitas vezes, intensa quando explode um escândalo, rapidamente, cede espaço à resignação.



Da revolta à apatia

Com essa aparente metamorfose de revolta em apatia, há notória sensação de que já se banalizou o escândalo na sociedade.


Nesse sentido, quando casos de corrupção se sucedem em ritmo quase contínuo, cada novo episódio perde parte de sua capacidade de surpreender, transformando o extraordinário em rotina, além de o cidadão passar a acreditar que "sempre foi assim" e que nenhum governo, partido ou instituição seria capaz de romper esse ciclo, levando-se a uma perigosa anestesia moral na sociedade.



Outro fator decisivo é o sentimento de impunidade que se verifica na atual cena nacional, principalmente, por se constatar que, mesmo após longas investigações e a comprovação de que houve corrupção, há recursos judiciais intermináveis, prescrições de crimes cometidos, absolvições e mudanças frequentes de entendimento jurídico em Cortes de Justiça, aspectos todos que alimentam a percepção de que dificilmente os responsáveis sofrerão as consequências proporcionais aos danos causados à sociedade.



Afinal, quando a punição parece exceção, a confiança na eficácia das instituições diminui e o cidadão tende a acreditar que a sua indignação produz poucos resultados concretos, fatores esses que alimentam um profundo sentimento entre os brasileiros de que o crime compensa no país.



Também pesa no momento a intensa polarização política que, em vez de ser tratada como um problema de Estado, a corrupção, frequentemente, é utilizada como instrumento de disputa entre grupos políticos rivais. Portanto, os escândalos deixam de ser avaliados pelos fatos e passam a ser interpretados segundo a identidade partidária dos envolvidos.



Para muitos, a corrupção do adversário é intolerável, enquanto a do aliado é relativizada ou simplesmente ignorada, aspectos esses que levam o combate à corrupção a perder, assim, seu caráter universal e a passar a obedecer à lógica da conveniência política.



Até que ponto o “jeitinho brasileiro” se configura em corrupção



Existe ainda um componente cultural que merece reflexão de alguns dos reinóis, quando o assunto é o famoso "jeitinho brasileiro" que, embora frequentemente associado à criatividade e à adaptação diante das dificuldades, pode, em determinadas circunstâncias, contribuir para a naturalização de pequenas transgressões às regras.



Evidentemente, não se pode estabelecer uma equivalência entre infrações cotidianas e grandes esquemas de desvio de recursos públicos.


Entretanto, quando pequenas irregularidades passam a ser socialmente toleradas, se enfraquece a cultura da integridade que sustenta a rejeição às grandes ilegalidades.



Por outro, a realidade econômica também influencia esse comportamento pois, em um país onde milhões de pessoas enfrentam dificuldades relacionadas ao emprego, à renda, à saúde e à segurança pública, a corrupção muitas vezes deixa de ocupar o centro das preocupações diárias, afinal, a sobrevivência imediata tende a se sobrepor ao debate sobre a qualidade das instituições, caracterizando-se que isso não significa indiferença, mas uma redefinição das prioridades diante das urgências da vida.


A baixa qualidade da educação no país que leva à incompreensão da corrupção

Outro aspecto frequentemente negligenciado em nosso país é a qualidade da educação básica que, em uma visão própria, contribui para que muitos brasileiros pouco compreendam os efeitos da corrupção para o cidadão que, por vezes, observa esse problema como algo abstrato e distante de seu cotidiano.



Com isso, poucos percebem que hospitais inacabados, escolas precárias, estradas deterioradas, medicamentos ausentes e serviços públicos deficientes, frequentemente, representam as consequências diretas do desvio de recursos públicos.



Portanto, enquanto a corrupção for percebida apenas como um crime financeiro, e não como um mecanismo que compromete vidas, sua gravidade permanecerá parcialmente invisível diante do cidadão comum.



Necessidade de qualificação das informações

As redes sociais têm um papel importante na difusão de informações na atual cena brasileira, não obstante, a cobertura permanente dessas mídias digitais, também, produz efeitos contraditórios.



Nunca houve tanta informação disponível, mas, também, nunca houve tamanha velocidade na substituição dos assuntos mediáticos que envolvem a corrupção, aspectos esses que contribuem, em uma visão particular, para constantes mudanças de pautas tratadas na sociedade.


Com isso, um escândalo ocupa as manchetes durante alguns dias até ser rapidamente eclipsado por outra crise, outro conflito ou outro tema viral, tornando a memória coletiva, cada vez mais curta, favorecendo o esquecimento e reduzindo a pressão por responsabilização de supostos envolvidos em corrupção.



A repetição desse processo gera um fenômeno particularmente perigoso no qual o “cinismo político” de alguns mal-intencionados passa a prevalecer de acordo com a conveniência do momento.



A juízo próprio, isso tudo contribui para o crescimento do número de cidadãos que acreditam que todos os agentes públicos são igualmente corruptos e que nenhuma mudança é possível.



Essa percepção, embora compreensível diante de sucessivos episódios, acaba beneficiando justamente aqueles que se aproveitam da descrença generalizada pois, quando todos são considerados igualmente culpados, desaparece o incentivo para distinguir boas práticas de más práticas.



A consequência dessa apatia é profundamente danosa para a democracia na medida em que os sistemas democráticos dependem não apenas de eleições periódicas, mas, também, de uma cidadania ativa, informada e exigente quanto à responsabilidade e ao papel dos agentes públicos.



Com todos esses ingredientes, a corrupção passa a prosperar pois não há efetiva fiscalização social, reduzindo os mecanismos de transparência e de cobrança permanente por integridade.


Há esperança ainda?


O Brasil já demonstrou, em diferentes momentos de sua história, a capacidade de exigir mudanças institucionais e de aperfeiçoar seus mecanismos de controle, não obstante, acredita-se que não se pode ficar inerte a tantos e sucessivos escândalos de corrupção que atingem o país.


Com isso, o combate à corrupção deverá ser imediato e, embora seja uma obviedade e clichê, a única alternativa, que resta ao cidadão na atual cena, é se informar e exigir daqueles que o representam probidade e correção no gasto do recurso público.



Preservar essa capacidade talvez seja o maior desafio da atualidade pois, afinal, uma democracia não se enfraquece apenas pela existência da corrupção, mas sobretudo quando seus cidadãos deixam de considerá-la um escândalo permanente e passam a enxergá-la como uma característica inevitável da vida pública.



Vitalino Consultor


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