A NORMALIZAÇÃO DO ABSURDO


Existe algo profundamente preocupante acontecendo no debate público brasileiro. Não se trata apenas de polarização política.
Polarização sempre existirá em sociedades livres. O problema é outro: a completa perda de proporcionalidade intelectual, moral e narrativa na forma como fatos, falas e comportamentos são julgados dependendo de quem os pratica.
Hoje, parcela significativa da opinião pública, da mídia e das elites institucionais brasileiras normaliza absurdos completos quando eles vêm da esquerda, enquanto transforma episódios muito menos relevantes ligados à direita em crises morais nacionais.
Nos últimos dias, por exemplo, o debate político foi tomado por conversas envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro sobre apoio privado para financiamento de um filme privado.
Independentemente do juízo político que alguém queira fazer, trata-se objetivamente de uma interlocução privada sem demonstração pública de ilegalidade, desvio institucional ou utilização direta da máquina estatal.
Ao mesmo tempo, praticamente passam ao largo do grande debate nacional notícias envolvendo reuniões presidenciais, interlocuções institucionais, aconselhamentos empresariais, aproximações políticas, contratos públicos bilionários e investigações relacionadas ao Banco Master e figuras próximas ao poder.
Não cabe aqui afirmar condenações inexistentes ou antecipar conclusões judiciais. Mas é impossível não perceber a diferença brutal de tratamento narrativo entre os casos.
A desproporção tornou-se tão evidente que parte da sociedade já nem percebe mais.
Esse fenômeno ajuda a explicar porque falas absurdas de lideranças da esquerda passaram a ser recebidas quase com naturalidade.
Talvez o exemplo mais recente seja a declaração do presidente Lula afirmando que “os pobres pagam o plano de saúde dos ricos” por meio das deduções do Imposto de Renda.
A frase consegue ser intelectualmente tão grotesca quanto a célebre fala de Dilma Rousseff sobre “estocar vento”, que à época virou símbolo do despreparo técnico do governo petista.
A diferença é que hoje muitos desses absurdos já não geram espanto proporcional porque foram progressivamente normalizados.
E o problema da frase não é apenas retórico. É econômico, lógico e civilizacional.
Existe, evidentemente, um debate legítimo sobre deduções médicas no Imposto de Renda. Pode-se discutir progressividade tributária, incentivos fiscais e impactos distributivos.
Mas transformar isso na afirmação de que “o pobre paga o plano de saúde do rico” representa uma inversão tão grosseira da realidade econômica que ultrapassa o campo da interpretação razoável.
O problema central é que o discurso ignora completamente a diferença entre geração de renda e redistribuição de renda.
Os setores produtivos da sociedade investem, produzem, assumem risco, empregam, geram excedente econômico, e financiam a arrecadação do Estado.
Já o Estado redistribui parte desse excedente por meio de programas sociais, salários públicos, previdência, subsídios, saúde pública, educação pública, transferências assistenciais e toda a estrutura estatal.
Isso não significa que programas sociais sejam ilegítimos. Toda sociedade civilizada possui algum grau de proteção social.
O problema é a mentira narrativa deliberada de inverter a lógica econômica para sustentar um discurso político emocionalmente apelativo.
Os mais pobres são, proporcionalmente, grandes beneficiários líquidos da estrutura estatal brasileira. Isso inclui SUS, educação pública, Bolsa Família, vale gás, subsídios, transporte, assistência e dezenas de outras transferências.
Da mesma forma, o funcionalismo público, embora deva exercer funções essenciais, não gera riqueza primária. O Estado não cria riqueza do nada.
Sua capacidade financeira deriva integralmente da atividade econômica produzida pelo restante da sociedade.
Sem produção privada não existe arrecadação sustentável.
Portanto, afirmar que “o rico vive do pobre” ou que “o pobre paga o plano do rico” não é apenas tecnicamente errado.
É uma distorção populista deliberada da lógica econômica básica.
Curiosamente, a mesma sociedade que relativiza esse tipo de absurdo costuma demonizar qualquer defesa de mérito, produtividade, lucro, acumulação, investimento, ou prosperidade privada.
Criou-se no Brasil uma espécie de moralidade invertida na qual produzir riqueza tornou-se moralmente suspeito, enquanto depender estruturalmente do Estado passou a ser romantizado politicamente.
A história econômica do mundo mostra exatamente o oposto.
Sociedades que protegem propriedade, valorizam produtividade, estimulam investimento, respeitam contratos e preservam segurança jurídica tendem a gerar abundância inclusive para os mais pobres.
Já sociedades que demonizam sistematicamente, empresários, produtores, lucro, mérito, e acumulação privada normalmente caminham para estagnação, escassez, dependência, inflação e decadência institucional.
O mais impressionante é que muitos dos que repetem slogans distributivistas sequer percebem a contradição lógica central. Não existe redistribuição sustentável sem geração prévia de riqueza.
Não se distribui o que não foi produzido.
E talvez esse seja o ponto mais preocupante de toda essa deterioração intelectual. O debate público brasileiro deixou progressivamente de punir incoerência, irracionalidade e absurdo quando estes vêm revestidos da estética moral correta.
A esquerda brasileira pode relativizar ditaduras, aproximar-se de cleptocracias latino-americanas, defender teses econômicas fracassadas, atacar mérito, distorcer conceitos básicos de geração de riqueza e ainda assim continuar recebendo tratamento complacente de grande parte das elites culturais e midiáticas.
Enquanto isso, qualquer deslize verbal, conversa privada ou imperfeição estética da direita frequentemente é transformado em ameaça existencial à democracia.
Essa assimetria destrói a honestidade intelectual do debate público.
E sociedades começam a entrar em decadência exatamente quando deixam de avaliar fatos pela sua gravidade objetiva e passam a julgá-los apenas pela conveniência ideológica de quem os pratica.
A verdade deixa de importar.
A coerência deixa de importar.
A lógica deixa de importar.
Resta apenas a narrativa.
E quando a narrativa substitui permanentemente a realidade, o resultado histórico normalmente não é justiça social.
É decadência.
Adriano Amaral
CEO da Arthur D. Little do Brasil
Empresário e Mestre em Economia e Administração pelo IESE Business School
Professor Visitante de Finanças do IESE
Foi Secretário de Estado de Desenvolvimento Econômico
Autor dos livros “Percepções” e “Contrapontos”




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