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A cultura de culpar os outros e o enfraquecimento da cidadania no Brasil

  • Foto do escritor: Vozes de Brasília
    Vozes de Brasília
  • 19 de fev.
  • 4 min de leitura


No Brasil, há uma frase que atravessa conversas de bar, debates televisivos e timelines digitais com desconcertante naturalidade: “a culpa é do outro”.


A economia vai mal? Culpa do governo anterior.


O Congresso não vota? Culpa do Executivo. O Executivo não governa? Culpa do Congresso. O Judiciário decide? Culpa da lei. O eleitor erra? Culpa dos políticos. Os políticos falham? Culpa do eleitor.


No fim, todos têm explicação — e ninguém tem responsabilidade.



Essa engrenagem silenciosa move boa parte da vida pública nacional.


Não é fenômeno novo, mas ganhou maior repercussão na era das redes sociais, onde opiniões são emitidas em segundos e convicções são defendidas como dogmas.


A crítica, indispensável à democracia, foi substituída pela acusação automática. Debate exige reflexão; acusação exige apenas um dedo em riste. E, de preferência, apontado para longe.


Jogo de Empurra


Criou-se um confortável jogo de empurra. Se o problema está sempre fora de mim, não preciso rever minha própria conduta.


Se a crise é sempre do “sistema”, posso continuar praticando pequenos atalhos morais no cotidiano.


Se a corrupção é estrutural, meu desvio é irrelevante. Assim, normaliza-se a incoerência entre discurso e prática.



O resultado é o enfraquecimento da cidadania. Democracia não se resume ao direito de reclamar; pressupõe participação ativa, fiscalização contínua e autocrítica.


Quando o cidadão limita sua atuação a compartilhar indignação digital, mas não acompanha o mandato de quem elegeu, a política vira espetáculo.


E espetáculo, como se sabe, precisa apenas de plateia — não de protagonistas.



O Brasil vive sob intensa judicialização, polarização e desconfiança institucional.


Parte dessa crise nasce da dificuldade histórica de reconhecer as falhas próprias.


É mais fácil atribuir a inflação a um governo, a corrupção a uma ideologia, a violência “à sociedade”, do que admitir que escolhas eleitorais, omissões coletivas e tolerâncias seletivas ajudam a moldar o cenário que se critica.



Reclama-se de tudo


Reclama-se muito; participa-se pouco. Exige-se ética absoluta dos representantes, mas relativizam-se vantagens pessoais quando convenientes.


Condena-se o “toma lá, dá cá”, mas celebra-se o favor individual.


Essa contradição corrói a legitimidade do discurso público e cria uma cultura de permanente indignação improdutiva.



Politicamente, o ambiente de culpabilização constante favorece narrativas simplificadoras.


Quando todos são culpados, surge sempre alguém disposto a se apresentar como o único inocente, o redentor da pátria. A história recente mostra que soluções mágicas costumam produzir frustrações duradouras.


“Salvadores da pátria” prometem atalhos; democracias exigem processos.



No campo institucional, a lógica da culpa dilui a corresponsabilidade. Políticas públicas dependem de cooperação entre Executivo, Legislativo, Judiciário, iniciativa privada e sociedade civil.


Sem reconhecimento de papéis compartilhados, prevalece o impasse.


Cada poder fala para sua bolha; cada grupo reforça sua própria versão dos fatos.



O impacto mais grave, contudo, está na formação cívica.


Uma sociedade que terceiriza responsabilidades forma cidadãos céticos e apáticos.


E a apatia é terreno fértil para o autoritarismo. Democracias não morrem apenas por rupturas abruptas; também se esvaziam por indiferença prolongada.



É evidente que o Estado brasileiro possui falhas estruturais que precisam ser denunciadas e corrigidas.


A crítica é parte essencial do regime democrático. O problema surge quando ela se transforma em álibi para a inação pessoal. Indignação sem compromisso vira performance; compromisso exige atitude.



O desafio e as responsabilidades do cidadão



O desafio contemporâneo é resgatar a noção de responsabilidade compartilhada. Governantes devem responder por seus atos. Instituições precisam ser cobradas com rigor.


Mas o cidadão também tem deveres: votar com consciência, acompanhar mandatos, participar de debates qualificados, agir com ética no cotidiano.



A maturidade democrática começa quando a pergunta deixa de ser “quem é o culpado?” e passa a ser “qual é a minha parcela de responsabilidade?”.


Parece sutil, mas muda tudo. Troca-se a lógica da acusação pela lógica da construção.



E aqui cabe uma pergunta incômoda: você se lembra em quem votou para deputado estadual e federal na última eleição?


Se não se recorda, talvez esteja aí a raiz de parte da frustração política que hoje vocaliza.


O voto não é gesto simbólico; é contrato. E contratos geram consequências.



Eliminar “coronéis” de longa data, rejeitar “messias” de ocasião e desconfiar de soluções providenciais não depende apenas de discursos inflamados.


Depende de escolhas reiteradas, fiscalização constante e coerência entre palavra e prática.


Democracia não é torcida organizada; é responsabilidade cotidiana.



O caminho longo para a cidadania plena



O caminho é longo e repleto de obstáculos, entre eles a cegueira moral e a dissonância cognitiva que nos fazem enxergar erros apenas no campo adversário. Ainda assim, não há alternativa confortável.


Ou assumimos nossa parte no jogo das responsabilidades, ou continuaremos presos ao ciclo eterno da culpa alheia.



No Brasil do século XXI, culpar o outro tornou-se hábito; assumir responsabilidades, exceção.


Talvez o verdadeiro ato revolucionário não seja apontar o erro alheio, mas reconhecer a própria contribuição — por ação ou omissão — nos problemas coletivos. A partir daí, a crítica deixa de ser fuga e passa a ser instrumento real de transformação.



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Sebastião Vitalino da Silva

Administrador CRADF n° 023239

@vitalinoconsultoria

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